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O cabeça de cuia e eu (Murilo Milhomem)
As águas dos rios Corda e Mearim contam muitas estórias. Uma delas foi importada do vizinho Piauí e se refere ao cabeça de cuia, bastante temido pela meninada da minha época.

Trata-se da figura folclórica mais popular de Teresina. Lá, tem uma data no calendário oficial para o cabeça de cuia, a última sexta-feira de abril de cada ano. Um monumento também foi levantado para homenageá-lo. Fica no bairro Poti Velho e é um dos locais mais visitados da cidade.

Uma surpresa, pois o cabeça de cuia me meteu muito medo quando eu era menino. Os pais utilizavam a figura contra os filhos que queriam tomar banhos nas águas barrentas e perigosas do rio na época das cheias. De nada adiantava, é claro, pois prevalecia o espírito de aventura da turma.

Pular do galho mais alto era sinônimo de virilidade. Pular da ponte representava o ouro olímpico de nossos dias, mesmo que isso significasse de repente cair em cima do próprio cabeça de cuia. Não importava.

Uma probabilidade pouco provável, por que a lenda conta que o cabeça de cuia tinha de devorar sete Marias virgens para tornar a praga da sua mãe sem efeito. No caso, ali, não existia uma única mulher.

O cabeça de cuia tinha nome. Se chamava Crispim. Tinha também uma profissão, era pescador. Portanto, um trabalhador como outro qualquer. Perdeu a caneça por causa de um prato de comida. Com raiva, atacou sua mãe com um osso de boi até a morte.

Daí a praga da velha. Se transformaria num monstro com uma cabeça enorme, do tamanho de uma cuia. As águas do Poti e Parnaíba seriam seu destino. Enquanto não devorasse as sete Marias virgens ficaria errante, dentro delas.

Como se vê, jamais o cabeça de cuia poderia trafegar nas águas do Corda e Mearim. Mais os boatos da época afirmavam que sim. O monstro teria sido visto rio abaixo por algum ribeirinho. Um outro pescador, do mesmo naipe dele, o cabeça de cuia.

Pura mentira! Ninguém acredita em estória de pescador. Na época eu não sabia. Acreditava piamente na existência dele, o cabeça de cuia. Mesmo assim fugia à beira do rio, para dar meus saltos da ponte.

por Murilo Milhomem
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