Ulysses faria 100 anos hoje; reveja a trajetória

O grande legado político de Ulysses Guimarães, inquestionavelmente, é a sua “Constituição Cidadã”. Ulysses comandou a Assembleia Nacional Constituinte com mão de ferro. Ela só funcionava com a sua presença, sentado na cadeira de presidente às vezes até 12 horas seguidas, sem levantar-se sequer para ir ao banheiro e conclamando o plenário com a palavra de ordem que se tornou marca registrada daquela longas sessões: “Vamos votar! Vamos votar!”

Naquele momento, Ulysses Guimarães acumulava o cargo de presidente da Constituinte com os de presidente da Câmara, do PMDB e também o de vice-presidente da República. Tanto poder o levou ao título de “o condestável da Nova República”, numa referência à mesma denominação dada a Pinheiro Machado, na Velha República. Os jornais só se referiam a Ulysses como “tetra presidente”. A fama de ser o principal mandatário da República, em vez de contribuir para o prestígio de sua candidatura à Presidência da República um ano depois da promulgação da Constituição, ao contrário, serviu para que ele tivesse uma acachapante derrota nas urnas. Ficou em sétimo lugar naquela disputa, o “lanterninha” da primeira eleição direta para presidente da República, cuja conquista o país deve muito a ele, pioneiro e quase escoteiro, no início, dessa campanha, na condição de “Senhor Diretas”.

Como candidato imposto por sua autoridade — com a ajuda da sua mulher Mora que, apenas com um colar rodando entre os dedos e um olhar fulminando cada um dos governadores do PMDB que, em reunião memorável, se revezavam para tentar barrar a candidatura do marido —, Ulysses, já no meio da campanha, sentiu que a fama de o homem mais influente do país o tornara cúmplice de um desastrado governo que terminava seu mandato com a inflação mais alta da história. Tentou desgrudar de Sarney, em cujo governo decididamente não mandava, mas já era tarde. Prevaleceu, no caso, a máxima perversa de que “na política, o que importa é a versão, não o fato”. Para o povo, ele mandava em Sarney. Tanto que chegou a apelar em vão aos seus marqueteiros:

— O meu problema é o Sarney. Eu preciso me desgrudar dessa tatuagem chamada Sarney.

Ulysses só veio mesmo a se livrar de Sarney e das mazelas do PMDB quando foi destituído, em 1990, da presidência do partido, que ocupava desde 1971, ainda com o nome de PMDB. Nesse episódio, o da perda do comando do PMDB para Orestes Quércia, ele novamente foi comparado a Pinheiro Machado, apunhalado pelas costas no então luxuoso Hotel dos Estrangeiros, no Rio de Janeiro, por um cidadão comum. Machado, ao sentir o golpe, gritou:

— Canalhas! Apunhalaram-me pelas costas.

E tombou morto.

Ulysses, ao contrário, ao sentir a apunhalada de Quércia, cujo surgimento e ascensão na política sempre foram debitados a ele como um dos seus pecados capitais, respondeu com um belo e curto discurso, preconizando a sua morte com dois anos de antecedência:

“Este discurso eu escrevi com o coração e o leio com os olhos úmidos. Na política, mais difícil do que subir é descer. É descer não carregando o fardo podre e fétido da vergonha. Desço. Vou para a planície, mas não vou para casa. Vou morrer fardado, não de pijama.”

A partir daí, Ulysses, como avisara nesse mesmo discurso, sentiu-se liberado para voar rumo à liberdade, a liberdade de ser apenas ele, o lobo solitário de todas as epopeias: “Vou livre como o vento, transparente e cantando como a fonte.” E o anticandidato à Presidência da República de 1973, o “Senhor Constituinte” de 1987-1988 e o “Senhor Impeachment” de 1992 transformou-se no “Senhor Democracia”, um líder sem cargos, que passou a pairar acima dos partidos.

Ulysses Guimarães hoje é referência nacional. Seus feitos, seus discursos e suas frases célebres foram cantados em prosa e verso, inclusive durante todo o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, por todas as correntes políticas, nas vozes dos principais líderes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.

Se a saga do chamado “Grande Timoneiro” da oposição à ditadura pudesse ser dividida em capítulos, pelo menos seis deles ganhariam maior destaque da sua biografia:

I – O enfrentamento físico à ditadura, quando atacado por cavalos da PM de Pernambuco e por cães e metralhadoras da PM da Bahia, além de ter luzes cortadas em seus comícios e bombas atiradas contra as passeatas do MDB. Tais fatos recuperaram o prestígio da oposição junto ao povo e colocou Ulysses na condição de o maior líder político contra o regime militar.

II – Talvez o mais importante episódio da sua condição de líder da oposição à ditadura: o lançamento da sua anticandidatura à Presidência da República em 1973, cuja semente germinou no ano seguinte a vitória do MDB contra a Arena em 16 estados Não tivesse, na eleição seguinte, a ditadura ter decretado o “pacote de abril”, reduzindo o quórum do Congresso e criando a figura do senador indireto, a oposição, já em 1978, teria vencido a eleição de presidente da República pelo colégio eleitoral, o que viria a acontecer somente em 1985 com a eleição de Tancredo Neves.

III – Processado pela ditadura, por ter comparado o general Ernesto Geisel ao então ditador de Uganda, Id Amim Dadá, Ulysses foi absolvido por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal.

IV – Contrário à participação do PMDB no colégio eleitoral, depois de derrotada a emenda das diretas, Ulysses, ao se ver isolado pelos governadores do partido, que tramavam à sua revelia a candidatura de Tancredo Neves, deu a volta por cima e assumiu o comando da campanha do amigo.

V – A acumulação de cargos com a presidência da Constituinte guiando-o à condição de um dos políticos mais poderosos da história da República.

VI – Inicialmente refratário à criação de uma CPI para investigar as irregularidades do governo Collor, assumiu o comando do impeachment do presidente, que o acusou de “velho gagá, que só vive às custas de remédios”. Em resposta, afirmou: “ Eu tomo remédios, sim. Mas as minhas drogas eu as compro legalmente nas farmácias”.

Fonte:  JORGE BASTOS MORENO do site http://oglobo.globo.com/

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