Índia é destaque entre Brics, com crise no Brasil e desaceleração da China

O PIB brasileiro voltou a registrar queda no segundo de 2016, segundo mostram os dados divulgados nesta quarta-feira (31) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com o Brasil e a Rússia em crise, a África do Sul registrando atividade econômica fraca e a desaceleração chinesa, a economia indiana é destaque de expansão entre os Brics (grupo formado por esses países).

O que são os Brics?
São países emergentes considerados subdesenvolvidos, mas que, nas últimas décadas, apresentaram um crescimento industrial alto: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

A economia da Índia cresceu mais que a da China em 2015 pela primeira vez desde 1999, e a previsão do Fundo Monetário Internacional é que essa seja uma tendência pelos próximos anos.

No segundo trimestre de 2016, o PIB da Índia cresceu 7,1% contra o mesmo período de 2015. Na mesma base de comparação, a economia da China teve expansão de 7%, e a do Brasil, recuo de 3,8%.

Em um ranking dos 34 países que representam 79%
do PIB Mundial e que publicaram seus resultados até o momento, a Índia lidera como o maior crescimento do PIB no segundo trimestre (repetindo a posição do trimestre anterior). A China ocupa a terceira posição (atrás das Filipinas) e o Brasil, a última. O levantamento é da Austin Rating. Veja a lista completa.

Veja abaixo 13 pontos sobre a liderança indiana no ranking de crescimento dos Brics. Para elaborá-los, o G1 ouviu o economista Luciano Nakabashi, professor da FEA de Ribeirão Preto, Paulo Feldmann, da FEA de São Paulo, e Arnaldo Francisco Cardoso, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Operários trabalham na linha de montagem de fiação de carros em uma fábrica em Noida, Índia (Foto: Anindito Mukherjee / Índia)Operários trabalham na linha de montagem de fiação de carros em uma fábrica em Noida, Índia. País passou por reestruturação econômica (Foto: Anindito Mukherjee / Índia)

1. Dados indianos são alvo de questionamento
“Existem dúvidas na qualidade dos dados da economia indiana, o que pode estar levando a um viés para cima das estimativas de crescimento econômico”, diz Luciano Nakabashi. Paulo Feldmann também questiona esse ponto. “Existe uma certa dúvida sobre se as estatísticas da Índia são verdadeiras, tem gente que acha que há uma manipulação dos dados e não dá para confiar naquilo que o governo divulga.”

2. Economia da Índia passou por reestruturação
“Muitos estudos apontam para a importância das reformas realizadas na Índia nos anos 1990, que foram no sentido de maior liberalização comercial e financeira, além de outras medidas que estimularam o setor privado”, pontua Nakabashi.

“Adicionalmente, o fato da Índia ainda ser um país muito pobre e com forte base na agropecuária fez com que o ganho de importância da indústria e, sobretudo do setor de serviços elevasse a produtividade pela transferência de trabalho da agropecuária para os dois últimos setores”, diz o professor.

PIB da india (Foto: G1)

3. O PIB cresce constantemente, mas a população muito pobre ainda é numerosa
O professor Arnaldo Francisco Cardoso aponta que “a distribuição de renda ainda é terrível” na Índia, mesmo com o crescimento econômico.  “É bastante sabido que crescimento do PIB não representa a melhora de distribuição de renda. E esse ainda é um grande desafio na Índia.”

Feldmann comenta que a Índia “tem uma população enorme, mas um terço dessas pessoas são absolutamente miseráveis. Têm muita dificuldade para encontrar um prato de comida por dia e não têm onde morar. É um problema muito sério, são cerca de 400 milhões de pessoas”. O país tem mais de 1,3 bilhão de habitantes, segundo dados de 2015 do FMI.

Nakabashi aponta inclusive que “o crescimento das últimas décadas piorou a distribuição de renda no país, pela falta de pessoas com maiores níveis de escolaridade, o que elevou muito os salários das pessoas com maior escolaridade, sobretudo daquelas com ensino superior”.

Catadores de lixo recolhem materiais recicláveis em um depósito em Guwahati, na Índia (Foto: Reuters)
Catadores de lixo recolhem materiais recicláveis em um depósito em Guwahati, na Índia (Foto: Reuters)

4. Grande disponibilidade de mão-de-obra barata estimula investidores
Feldmann cita o grande número de trabalhadores não qualificados que se sujeitam a trabalhar por salários muito baixos – o que diminui o custo de produção e atrai investimentos, mas representa a manutenção da baixa qualidade de vida de muitas pessoas. “Realmente a mão-de-obra deles é muito barata porque eles têm esse contingente enorme de pessoas miseráveis que aceitam trabalhar por qualquer coisa.”

“Para o investidor, contar com uma mão-de-obra barata é positivo em termos de atração de crescimento. Mas, em termos de apropriação pela população local dos resultados desse crescimento, não é positivo”, complementa Arnaldo Francisco Cardoso.

Foto de agosto de 2016 mostra pequena fábrica de vestuário em Mumbai. Mão de obra barata é abundante na Índia e atrai investidores, gerando efeito positivo sobre o PIB sem que haja melhora na distribuição de renda, explicam especialistas. (Foto: Danish Siddiqui / Reuters)
Foto de agosto de 2016 mostra pequena fábrica de vestuário em Mumbai. Mão de obra barata é abundante na Índia e atrai investidores, gerando efeito positivo sobre o PIB sem que haja melhora na distribuição de renda, explicam especialistas. (Foto: Danish Siddiqui / Reuters)

5. Maior número de falantes de inglês ajuda o mercado de trabalho
Além de citar um esforço do governo em qualificar trabalhadores, Feldmann também cita o grande número de indianos que falam bem o inglês como vantagem competitiva do mercado de trabalho.

“Isso permitiu que eles se transformassem no call center do mundo. Hoje, as grandes empresas de call center estão na Índia. Se você ligar na American Airlines para fazer uma reserva ou uma reclamação, pensa que ligou para os Estados Unidos, mas vai ser atendido por uma pessoa na Índia. E eles direcionam o atendimento para pessoas que falem com o sotaque igual ao da região de onde se está chamando. Isso gerou muito emprego para pessoas de baixa qualificação, é uma mão de obra barata que fala inglês”.

O professor aponta que há empresas de outros setores terceirizando serviços para a Índia. “Não são só os call centers. Eles são muito competentes na área de informática, por exemplo. O mundo inteiro está terceirizando para a Índia. Isso gera muito emprego lá porque a mão de obra é barata”, diz Feldmann. “Como esse pessoal ganha muito mal, é fácil gerar empregos lá. Isso atrai empresas do mundo inteiro.”

6. A questão cultural ainda pesa sobre a economia
“Esse terço da população que são as pessoas miseráveis não têm nem carteira de identidade”, descreve Feldmann. “São pessoas que ocupam funções absolutamente sem nenhuma importância, a maioria delas não trabalha inclusive, são totalmente analfabetos. Mas não entram nas estatísticas. Pela religião, são o que se chama de ‘párias'”.

Membros da casta mais baixa da Índia, os 'dalits', em foto do dia 15/08: protesto foi organizado na cidade de Una, após quatro homens da casta mais baixa terem sido espancados após tentarem pegar o couro de uma vaca morta. Vídeo mostrou os agressores usan (Foto: AP Photo/Ajit Solanki)
Membros da casta mais baixa da Índia, os ‘dalits’, em foto do dia 15/08: protesto foi organizado na cidade de Una, após quatro homens da casta mais baixa terem sido espancados após tentarem pegar o couro de uma vaca morta. Vídeo mostrou os agressores usan (Foto: AP Photo/Ajit Solanki)

Arnaldo Francisco Cardoso complementa que em cidades maiores, como Mumbai e Nova Deli, “as resistências culturais foram sofrendo uma modernização”. “Ainda tem milhões de pessoas no campo com a manutenção das formas mais tradicionais de organização social. Tradições como o sistema de castas ainda são muito presentes em uma grande parte do país.”

7. País passou a valorizar investimentos em infraestrutura, mas ainda há problemas
“O governo tem feito coisas inteligentes nos últimos anos, e entre elas está o investimento em infraestrutura, principalmente a parte ferroviária. Quase todo o transporte de carga é feito por ferrovia na Índia, e isso dá uma vantagem enorme para as empresas de lá, pois o transporte é mais barato”, destaca Feldmann. “Eles também têm investido muito em energia elétrica, mas esse setor ainda é ruim por lá, vira e mexe tem apagão. O país cresceu mais do que eles conseguiram construir usinas”, ressalva.

O especialista também destaca a presença forte do Estado em vários setores da economia, inclusive no que se relaciona com infraestrutura, e aponta que muitas vezes a eficiência é prejudicada. “O setor de aço tem empresas do Estado, de energia elétrica, as ferrovias que são estatais, diversos setores industriais. Eles têm estatais em setores que não precisavam. O efeito em geral é ineficiência.”

Cardoso, no entanto, aponta que essa presença do Estado vem diminuindo, embora continue marcante. “Há uma redução gradual não radical dos setores em que o Estado é atuante, em um processo de ampliação da atuação do setor privado. Mas seria exagero falar que é um Estado mínimo, liberal, não é verdade. Ainda tem muita burocracia estatal, ineficiência estatal.”

Foto de 29/07 mostra enchente na cidade de Gurgaon, próxima a Nova Delhi. A região passou por processo rápido de urbanização e se tornou um centro financeiro e industrial. (Foto: AP Photo/Altaf Qadri)
Foto de 29/07 mostra enchente na cidade de Gurgaon, próxima a Nova Delhi. A região passou por processo rápido de urbanização e se tornou um centro financeiro e industrial. (Foto: AP Photo/Altaf Qadri)

8. Eficiência do setor de tecnologia é diferencial
Cardoso aponta que “a Índia tem hoje uma elite de profissionais altamente qualificados” em segmentos de tecnologia, como desenvolvimento de softwares e hardwares. “Eles têm se notabilizado na produção de bens de alto valor”, aponta.

“A Índia identificou o setor de tecnologia da informação como estratégico há 10 anos. Há ainda uma política industrial com oferta de cursos de engenharia, estímulo ao investimento na formação de mão de obra qualificada”, diz o especialista.

Foto de fevereiro de 2016: operários trabalham na linha de montagem de uma fábrica recém-inaugurada da Honda, em Vithalapur, na Índia (Foto: Amit Dave / Reuters)
Foto de fevereiro de 2016: operários trabalham na linha de montagem de uma fábrica recém-inaugurada da Honda, em Vithalapur, na Índia (Foto: Amit Dave / Reuters)

9. Governo estimula empreendedorismo
“Eles estão empenhados em reduzir a pobreza, e para isso têm empregado algumas políticas como estimular o empreendedorismo”, afirma Feldmann.

“Eles dão empréstimos para as pessoas que são muito pobres, de valores pequenos, para comprar coisas como máquina de costura, um computador, um carrinho de pipoca, coisas desse tipo. Esses empréstimos são o que se chama de microcrédito, ele vai ter no mínimo 10 anos para pagar, e não tem juros. Isso é para se tornar um pequeno empreendedor. O microcrédito é o fator que tem movido e retirado esse pessoal da pobreza e colocado na classe média.”

Cardoso, no entanto, ressalta que a burocracia no país ainda dificulta o empreendedorismo. “A desburocratização é um processo que ainda está em curso. A Índia sofre bastante com a burocracia que dificulta uma performance mais dinâmica do setor privado.”

10. País não é dependente do preço das matérias-primas
A Índia, ao contrário do Brasil, tem como vantagem econômica diante do cenário atual a baixa dependência do preço de matérias-primas no mercado internacional. “A atividade industrial na Índia inclusive vem se beneficiando da queda do preço internacional do petróleo”, diz Arnaldo Francisco Cardoso.

11. A corrupção continua entre os problemas indianos
“Outro problema muito sério na Índia é a corrupção. Mas existem medidas que estão gradualmente reduzindo e reformando o padrão de atuação do Estado, o que diminui os espaços da corrupção e reduz as despesas com setores onde antes ele se fazia mais presente”, avalia Cardoso.

12. A inflação está controlada

inflação na índia (Foto: G1)

A Índia passou de uma inflação de mais de 10% em 2012 para 5,3% no ano passado. Segundo Nakabashi, esse dado é muito importante para analisar o desempenho da economia do país nos últimos anos. “O país tem crescido e com maior controle inflacionário. Isso ocorre por aumentos de produtividade, que é fundamental no crescimento de longo prazo”, afirma.

“A queda da inflação é sempre resultado de políticas macroeconômicas acertadas, e benefício também da queda dos preços internacionais das matérias primas. Aquilo que eles importam mais barato ajuda na queda dos preços”, completa Cardoso.

Comércio de alimentos em Mumbai, na Índia. Inflação no país vem diminuindo, embora especialistas questionem a credibilidade dos dados divulgados pelo governo (Foto: Danish Siddiqui / Reuters)
Comércio de alimentos em Mumbai, na Índia. Inflação no país vem diminuindo, embora especialistas questionem a credibilidade dos dados divulgados pelo governo (Foto: Danish Siddiqui / Reuters)

13. As contas do governo estão sob controle
A dívida pública indiana em relação ao PIB vem diminuindo nos últimos anos. Entre 2010 e 2015, caiu de 67,4% do PIB do país para 65,2%, segundo dados do FMI. Para comparação: a dívida da China cresceu de 36% para 43,2% do PIB no mesmo período. A estimativa para os próximos anos é que a relação entre a dívida do país e o PIB continue caindo na Índia e subindo na China.

“O governo da Índia não gasta mais do que arrecada. Assim conseguem manter a saúde financeira do pais muito boa, com uma situação fiscal saudável e equilibrada”, comenta Paulo Feldmann.

Fonte: Karina Trevizan Do G1, em São Paulo

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest
Share on pocket
Pocket
Share on whatsapp
WhatsApp

Barra Do Corda portal de notícias, tudo sobre a nossa cidade com:

Rapidez, Verácidade e Ética.

Não se esqueça de se inscrever para receber nossas notícias. Digite seu e-mail e saiba tudo sobre Barra do Corda a nossa cidade.

Informações

Chat
Enviar via WhatsApp
Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com