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Se estivesse vivo, o Prof. Nonato Silva completaria hoje 100 anos – barradocorda.com – Ribamar Guimarães – “o bom maranhense”
Publicado em: 13 de agosto de 2018 - 11:59

Se estivesse vivo, o Prof. Nonato Silva completaria hoje 100 anos

*Por Kissyan Castro

Raimundo Nonato Ribeiro da Silva, o Frei Paulo de Barra do Corda, ou, como gostava de ser chamado, o Prof. Nonato Silva, faria, nesta segunda-feira, 13 de agosto de 2018, exatamente 100 anos.

Impõe-se lembrar do centenário de Nonato Silva (1918-2014), cujo passamento ocorreu aos 96 anos, por dever moral e estima afetiva a este que foi, sem sombra de dúvida, o maior patrimônio intelectual e cultural da terra de Melo Uchoa.

De sua vasta e pomposa biobibliografia, registramos aqui apenas uma síntese.

Nonato Silva nasceu no dia 13 de agosto de 1918, em Barra do Corda/MA, onde, aos onze anos de idade, ingressa no seminário provisório dos Padres Capuchinhos. Incentivado por Frei Adriano de Zânica, deixa a terra natal aos treze anos a fim de preparar-se para a vida eclesiástica. Seguiu para São Luís e, depois, para Fortaleza, onde estudou ciências e letras. A primeira grande mudança ocorreu em 1936, ao decidir estudar em Roma. Licenciado em Filosofia, Psicologia e Letras Neolatinas, além de Bacharel em Teologia e Jornalismo. Impedido de deixar o país durante a Segunda Guerra Mundial, aprofunda-se no aprendizado, alcançando o título de Doutor “In Utroque Iure” e em Filologia Românica. De volta ao Brasil, dedica-se ao magistério e jornalismo, ordenando-se presbítero em 30 de setembro de 1945, em Sobral, no Ceará, com o nome de Frei Paulo. Exerceu o ministério sacerdotal nas regiões do Nordeste, mormente em Barra do Corda, até 1953, quando transfere-se para o Rio de Janeiro. Redator do então Ministério da Educação e Cultura, foi convidado, em novembro de 1956, a chefiar a recém-criada Divisão de Divulgação da Companhia Urbanizadora da Nova Capital – NOVACAP, onde criou, dirigiu e editou a revista “Brasília”. Iniciava-se, assim, a imprensa de Brasília, e seu diretor e redator é o primeiro jornalista do Distrito Federal. Escreveu obras de reconhecido valor, entre as quais: “História do Hino Nacional Brasileiro” (1991); “Língua Brasileira” (2000); “Filhos da Batina” (2000); “O Hífen nos Compostos Prefixais” (2000); “História da Ortografia da Língua Portuguesa” (2001); “História da Lexicografia da Língua Portuguesa” (2003); “História da Universidade Aberta no MEC” (2006); “Divagações” (2011); “Homilia” (2011); “Agressões à Língua Portuguesa” (2011); “Poetas da Construção de Brasília – Origem da Literatura Brasiliense” (2012). Faleceu em Brasília, no dia 5 de novembro de 2014.

A Academia Barra-Cordense de Letras, em suas homenagens alusivas ao centenário do nascimento do mestre Nonato Silva, está preparando evento, com data ainda não divulgada, que constará, além da sessão solene, de uma exposição e do lançamento do livro “Educação e Cultura”, elaborado a partir de uma seleção de artigos do prof. Nonato Silva, publicados no jornal “A Cruz”, do Rio de Janeiro, entre 1959 e 1961.

Dos artigos que compõe esse trabalho, disponibilizamos um como demonstração do quanto ele, Nonato Silva, preocupava-se com os problemas da educação e cultura em nosso País, engajado como estava na conjuntura histórico-cultural da qual fez parte e para cujas mudanças tornara-se um dos maiores entusiastas.

 

***

Capa do livro do Centenario do Prof. Nonato Silva, a ser lançado em breve.

Nosso índice institucional é de uma fragilidade incomum. As mutações contínuas e frequentes, que nos afligem, impedem-nos uma evolução real e profunda. E nada de sólido e duradouro se implanta, sem o auxílio onímodo necessário do alicerce institucional.

Pura veleidade de certos otimistas que querem avantajar-se aos demais, numa verdadeira caçada de oportunidades, vilipendiadores e desumanos, gineteiam dentro da curva das incertezas mavórticas. Incertezas essas que desfibram a sinceridade, despindo-a daquela clâmide alvinitente, que simboliza a força e a constância.

A cronologia mede o tempo, marca a história, assinala a psicologia. A obstrução de uns não sobrepuja a dignidade de muitos. A perícia de uns não consegue arrebentar os elos das correntes de muitos. E assim segue o cortejo interminável de oscilações, no túmulo das incompreensões e na voragem incontida do personalismo.

A propósito, a mitologia descreve o curso do rio Lete rumo aos Infernos. As sombras dos mortos bebiam-lhe as águas para esquecerem os males e os prazeres da vida, pois Lete significa esquecimento.

A desarticulação atual visa tão somente amesquinhar a nossa estabilidade, por falta de estruturação política, social e cultural. Daí a triste mercancia dos valores e de caráter, a transformar as instituições em Valongos universais ou Valhalás, onde repousam os heróis mortos nas batalhas, e onde se bebe o hidromel, servido pelas meigas Valquírias.

Daí o enfraquecimento da democracia e o império da demagogia. Escreveu, por isso, Milton Campos: “Demagogia e corrupção são irmãs pela origem na mentira, ora falam aos ingênuos pela mentira das promessas, ora falam aos fracos pela mentira do dinheiro”.

Tudo isso conduz ao emaranhado da decadência a desenvolver falsidade e desuniões num verdadeiro jogo de mistificações e numa verdadeira comédia de erros.

Então surge a pergunta: queremos a continuação desse estado de coisas? Certamente que a resposta vem pronta: não! Pois bem, é preciso que ninguém se dispense do dever sagrado de contribuir, por mínima que seja a sua capacidade, para o soerguimento total de nossa formação, que exige sacrifício e compreensão.

Não é possível que se continue a estimular o fratricídio. E amanhã a Nação, diante de hecatombe de inocentes, venha, qual Raquel, a chorar, em pranto amargo, a morte de seus filhos, que já não existem, no epicédio do profeta: “Vox in Rama audita est, ploratus, et ululatus: Rachel plorans, filios suos et noluit consolari, quia non sunt”[1].

Na “Arte de Furtar”, lê-se: “Deus no princípio criou o homem livre e tão livre que a nenhum concedeu o domínio sobre o outro; e até Adão, cabeça de todos, por ser o primeiro, só de animais, aves e peixes o fez senhor. Mas a todos juntos em comunidade deu poder para se governarem com leis da natureza”.

Nada mais belo pode haver fora este princípio. A liberdade é tudo para o homem. Mas não pode haver equívoco. Não se pode também confundir liberdade com libertinagem. O conceito de liberdade, para muitos, corrompeu-se, tempo em fora. Foi-se a beleza, revestida de magnanimidades. Veio, porém, o remédio. O homem educou-se. Reconstituiu-se, assim, o que parecera perdido. Até do amor o homem viu-se presa. Por exemplo, a ninfa Calipso prendeu, pelo amor, a Ulisses, em Ogígia, durante sete anos, após um naufrágio.

Concluímos com uma visão mais larga do panorama da humanidade. Temos que formar a criatura dentro das normas da democracia, pelos postulados da educação completa, para a manutenção da verdadeira liberdade, que vive à sombra benfazeja e amena, “sub tecnime fagi”, da cultura e da instrução.

Povo culto, povo distinguido. Povo culto, povo democrata. Assim a liberdade racional diviniza o homem, e fá-lo digno dela, sob os fluidos da democracia. 

[A CRUZ, 24.9.1961] 

[1] MT 2:18

 

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