gov
No jequitibá, sonhando com Sônia Guajajara. Por José Ribamar Bessa Freire – barradocorda.com – Ribamar Guimarães – “o bom maranhense”
Publicado em: 4 de julho de 2018 - 09:20

No jequitibá, sonhando com Sônia Guajajara. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Vanuire: esse é o seu nome. Franzina, de idade indefinida, trabalhou como escrava em uma fazenda, onde o então coronel Rondon, criador do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), foi buscá-la para apaziguar os Kaingang do vale do Rio Feio, invadido pelas obras da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Ela sonhou com a paz. Subiu numa árvore de jequitibá e, lá do alto, começou a cantar em língua kaingang, de manhã, de tarde e de noite, durante dias, até que um acordo de paz foi assinado. Morreu em 1918 e está sepultada em um mausoléu em Tupã (SP), onde existe um museu com seu nome. Conquistou a paz, cantando. 

Cem anos depois, Sônia Bone Guajajara, 44 anos, da aldeia Lagoa Quieta, na Terra Indígena Arariboia (MA), sonha um Brasil avançando pelo “caminho iluminado” da justiça social. Seu jequitibá é o PSOL, que apresentou sua candidatura a vice-presidente da República, na chapa com Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). De lá, como primeira indígena numa chapa presidencial, ela já começou a cantar, consciente de que a paz social se conquista com muita luta e não depondo as armas da mobilização e da organização.

A trajetória de Sônia

A vida de Sônia Guajajara é feita de constante luta. Dos 10 aos 14 anos, cursou o antigo ginásio na cidade de Amarante (MA), enquanto trabalhava como doméstica e babá para manter seus estudos. Depois, com apoio da Funai, cursou o Ensino Médio na cidade de Esmeraldas, em Minais Gerais. Lá, participou ativamente das atividades do Grêmio Estudantil da Fundação Caio Martins e de apresentações teatrais. Aprovada com as melhores notas, retornou ao Maranhão para cursar Letras e Enfermagem e, depois, uma pós-graduação em Educação Especial na Universidade Estadual (UEMA).

Mesmo depois de casada, mãe de três filhos – Mahkai, Yaponã e Y’wara – Sônia continuou politicamente ativa. Participou de muitas frentes de luta e foi se firmando como liderança reconhecida dentro e fora do movimento indígena. Durante seis anos, dirigiu a Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (COAPIMA), depois foi vice-presidente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), sediada em Manaus. Finalmente, se tornou a líder da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).

Nesta condição, viajou por todo o Brasil, participou de caravanas à Brasília para pressionar o Congresso Nacional reivindicando terra, qualidade de vida, meio ambiente sadio, saúde e educação, enquanto trabalhava na Funai como auxiliar de enfermagem nas aldeias Canudal e Zutiw’a. Na APAE cuidou de crianças excepcionais, sendo aprovada em concurso público, primeiro como auxiliar de enfermagem, e depois como professora.

Todos os grandes eventos protagonizados pelo movimento indígena nos últimos vinte anos contaram com a participação decidida de Sônia Guajajara. Ela estava presente na Marcha para discutir o Estatuto dos Povos Indígenas, o primeiro evento nacional em Luiziânia (GO), em 2001, e nas assembleias da COIAB em Manaus. “Fui crescendo e aprendendo na luta” – ela diz, relatando sua atuação nos encontros estaduais indígenas do Maranhão, no movimento de ocupação da FUNASA, na interdição da Ferrovia Carajás-Vale, em 2005.

Sônia foi ovacionada, em dezembro de 2015, por cerca de 1.500 índios, de 139 etnias, participantes da I Conferência Nacional de Política Indigenista (CNPI) realizada no Centro Internacional de Convenções de Brasília, quando cobrou, com sucesso, da então presidente Dilma, uma posição contra a Proposta de Emenda Constitucional que inviabilizava a demarcação de terras indígenas, a famígerada PEC 215, defendida pela ministra da Agricultura Kátia Abreu. Três anos antes, sob pressão dos índios, Dilma havia assinado o decreto da Política Nacional de Gestão Ambiental e Territorial em terras indígenas.

Sonia Guajajara entrega à senadora Katia Abreu a Motosserra de Ouro, em Cancun. Foto: Ivan Castaneira /Greenpeace

Miss Motosserra

Depois de ganhar projeção nacional, Sônia começou a ser conhecida em outras partes do mundo. Em 2008 participou do Forum Permanente da ONU, em Nova Iorque, onde defendeu que “o centro do mundo é a Amazônia, pois se acabarem com as nossas matas, riquezas naturais, não haverá Estados Unidos ou Nova Iorque que sobreviva”.

Teve participação em diversos eventos internacionais. O mais conhecido deles ocorreu em 2010, em Cancun, no México, quando entregou pessoalmente o Prêmio Motosserra de Ouro à senadora Katia Abreu, que era a presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), acusada por ambientalistas de querer acabar com o Código Florestal.

É essa Sônia Guajajara que se apresenta ao eleitor brasileiro como candidata a vice presidente da República pelo PSOL, ao qual se filiou em 2011, depois de sair do PT, por discordar da aliança feita localmente com Roseana Sarney e nacionalmente com o pai da dita cuja. Ela é conhecida fora do Brasil pela sua luta em defesa do meio ambiente, contra o desmatamento e a poluição dos rios. Sua voz se fez ouvida no Conselho de Direitos Humanos da ONU e nas Conferências Mundiais do Clima (COP) de 2009 a 2017, além do Parlamento Europeu, entre outros órgãos e instâncias internacionais.

Sônia Guajajara acredita que é possível fazer política de forma ética e honesta, mas para isso é importante que as pessoas de bem, com tais qualidades, ocupem o espaço da vida política, hoje propriedade de quadrilhas, seja votando, seja sendo votado.

A candidata a vice-presidente já recebeu várias comendas e honrarias, como o Prêmio Ordem do Mérito Cultural, em 2015, concedido pelo Ministério da Cultura, e a Medalha 18 de Janeiro conferida pelo Centro de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos Padre Josimo. Ela vem manifestando sua preocupação com o que denomina de “pacote do veneno”, o projeto de lei apresentado pelo atual ministro da Agricultura, Blairo Maggi, que facilita o uso de agrotóxicos e elimina controles de órgão da saúde e do ambiente.

Já estou em campanha, vestido com a camisa de Sônia Guajajara e Guilherme Boulos, com a esperança de que consigam trazer para o debate nacional as reivindicações dos índios, dos sem-teto, dos sem-terra e de toda a população lascada do Brasil. O povo Guajajara/Tentehar, como os Guarani, sabem muito bem que os sonhos, como parte das tradições, trazem revelações – omoexakã  – capazes de guiar cada passo no processo de construção deste imenso Tekoa que é hoje o Brasil. De Vanuire à Sônia, um longo caminho de sonhos.

Exibindo 1 comentário
Dê sua opinião
  1. Oséas Pacheco disse:

    Caro Ribamar Guimarães;
    Parabéns pela valiosa matéria acima publicada sobre a candidatura de Sonia Guajajara, a guerreira que abre as portas para a visibilidade do povo a quem essas terras sempre pertenceu.
    Valiosa também é a tua determinação de vestir essa camisa e abraçar essa causa, que é também extensiva a todos aqueles a quem as “elites” de nossa pátria sempre perseguiu e explorou sem trégua e sem dó.
    Como sabes, não estamos na mesma sigla, mas seguimos na luta pelas mesmas causas. Espero dar uma chegada aí em nosso torrão ainda antes das eleições quando trocaremos umas figurinhas e tomaremos umas daquelas que passarinho não bebe. Abraços
    Brasília 04 de julho 2018

Deixe um comentário

XHTML: Você pode usar essas tags html: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Rádio

Enquete

Se você fosse o Presidente Eleito do Brasil o que melhoraria de imediato no País?

Ver Resultados

Carregando ... Carregando ...

Videos

Facebook