“No congresso, ninguém pode andar com pedra. Vai ser difícil encontrar alguém, ali, que possa atirar a primeira”

Cientista político e historiador Boris Fausto concedeu essa entrevista na sexta-feira (15/04) dois dias antes de os deputados federais aprovarem a abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. O cenário já estava desenhado. E a votação em Brasília apenas oficializou a coisa toda. Na sala que serve de escritório em sua aprazível casa no bairro da Cidade Universitária, em São Paulo, o professor Fausto, 85 anos, falou do Brasil que poderá emergir a partir de agora. Também discorreu sobre a questão da ausência de líderes, um fenômeno mundial, e propôs uma iniciativa que seus próprios amigos chamam de aventura: apoiar, em 2018, a provável candidata Marina Silva. Para ele, seria uma terceira via com biografia limpa, a maior urgência do país nestes tempos de Eduardo Cunha e companhia. Acompanhe:

O que será do Brasil a partir de agora?
Será, nos próximos dois anos, uma República tampão. Em dois anos não é possível fazer muita coisa. Talvez uma ou outra medida pontual, como o controle de gastos ou a redução do número de ministérios – algo que Temer vem falando em fazer, caso ele assuma. Já as mudanças mais profundas, como a reforma política ou da previdência, brutalmente necessárias, são complicadas de realizar nesse prazo. Sobre a situação econômica, eu acho que melhora um pouco. Talvez tenhamos um bom ministro da fazenda, com mais autonomia. E a simples sinalização de mudança pode dar algum ânimo ao mercado. Mas, de novo, serão medidas pontuais.

Temer é capaz de fazer um pacto, acalmar o país?
Não sei. Ele é mestre nessa coisa de ser sabonete, não sei se conseguirá unir a turma. Eu penso em como era o congresso no tempo do Collor. Que eu me lembre, havia pouca gente tão envolvida com problemas de corrupção, pelo menos em comparação ao que temos hoje. O Brasil do impeachment do Collor era muito mais sério. Nosso parlamento atual é uma comédia. O Eduardo Cunha à frente, os caras todos comprometidos… No congresso, ninguém pode andar com pedra, pois vai ser difícil achar alguém, ali, que possa atirar a primeira. E em relação ao próprio Temer, vamos ver o que pode acontecer em termos legais. Essa história de fazer um pacto agora me parece irreal. Ele vai enfrentar muitos problemas. Imagine como será enfrentar o PT na oposição?

Como será?
É sempre difícil. Eles vão fazer um inferno. Existem grupos mais radicais que tem certa força no partido.

E como fica o Lula?
Muita gente diz que a melhor narrativa para o Lula – se ele não for pego do ponto de vista legal – é a do martírio. A Dilma sai, eles são vitimas do golpe e entram para a história. E o Lula tenta sair candidato em 2018.

Pesquisas mostram que ele lideraria uma corrida presidencial em 2018, seguido por Marina
Pois é. A República tampão terá de fazer algo realmente diferente se quiser mudar a história.

Qual Brasil o senhor imagina em 2018?
Eu desejo que os problemas de corrupção diminuam, embora não acredite na lisura de Temer. Mas, neste momento, é o que temos. É o tal negócio: o mundo não é o que a gente quer, mas sim o que a gente tem. Que ele faça, então, o que for possível. Mas o que eu espero mesmo… É o seguinte: as coisas estão tão ruins que eu acho que precisaríamos dar um estalo e apoiar a Marina. Meus amigos dizem que estou pedindo uma aventura. Mas eu acho isso mesmo, que devemos apoiá-la.

Seria uma terceira via?
Seria. Ela é incontestável do ponto de vista ético. É ficha limpa. Ela pode montar um bom ministério. Do ponto de vista da economia, ela criou juízo. Parece claro isso. Ela tem saúde para governar. PT e os movimentos sociais não poderão dizer que ela é candidata dos ricos, uma vez que Marina também dialoga muito bem com a massa. Nesse sentido ela é um bom nome. Ela também tem um compromisso maior com certas questões fundamentais, como a ecológica, que não é brincadeira. Há quem diga, no entanto, que há pontos de interrogação sobre a Marina, como, por exemplo, o seu comportamento retrógrado. Mas é o tal negócio: o líder dos sonhos não existe.

Mas ela conseguirá governar, terá força suficiente para montar uma bancada forte?
Esse é um ponto importante. Se a Marina for candidata e vencer as eleições em 2018, vamos ter de novo um caso curioso de alguém que se elege com uma quantidade enorme de votos, mas possivelmente sem um grande partido de apoio.

Será possível governar assim?
Impossível. Por isso ela terá de trabalhar bastante para chegar até lá. Sua vantagem é que a concorrência anda enfraquecida. O Aécio está afundando. O Serra não ganha eleição. Ele é até bom, a meu ver, mas tem alta rejeição.

E o Geraldo Alckmin?
Você vê o Rio votando no Alckmin? O Nordeste? Esse Brasil não vota nele.

O senhor disse na última Flip que o PT trouxe coisas importantes ao Brasil e depois perdeu a mão. E, perguntado sobre como andava a oposição no Brasil, simbolizada pelo PSDB, respondeu com um “vai mal, obrigado”. O senhor acha que nós encerramos um ciclo no Brasil, de esgotamento dos grandes partidos?
O projeto do PSDB se foi. Muita gente me critica quando eu falo isso, mas eu continuo achando mesmo que se foi. Aquele projeto social democrata não existe mais. O partido não tem uma fisionomia própria.  Agora, ele pode ainda canalizar uma insatisfação? Pode, mas tem que fazer um esforço de lideranças, com um nível de compreensão e união que eu não sei se eles são capazes. Por que despenca a votação de qualquer pessoa do partido? O Aécio é o mais bem colocado nesse quesito, mas está despencando. E os outros são inexpressivos. Isso ocorre porque a população está decepcionada com o papel que a oposição poderia ter tido numa ocasião tão favorável a ela, como hoje. Eles navegaram com mais esperteza do que sagacidade e sabedoria. Nunca foram capazes de ter uma linha coerente de oposição ao longo destes anos. Foram muito imediatistas e quebraram a cara com esse imediatismo. O PSDB está enfraquecido. O PT também. E o PMDB é aquele balaio. Até que ponto essa bancada,  que é grande, sustentará com certa homogeneidade o governo Temer? Até que ponto o Temer não distribuirá cargo a torto e a direito? Quem pode prever? Realmente não temos organizações com a forma e a representatividade que tiveram no passado.

Qual a saída?
Construir um partido é difícil. Todo mundo que saiu de partidos maiores sabe disso. A maioria se seu deu mal. Talvez, num clima econômico melhor e com o país nos eixos, seja possível realizar a reforma política. Com ela, talvez tenhamos um espaço maior para a representação menos comprometida com os grandes financiadores. Refiro-me ao atual modelo, das bancadas da bola, da bula, do boi. Mas tudo isso dependerá de quem a gente vai colocar no congresso. E aí entra o papel do povo. A população não dá muita importância ao congresso, aos votos nos deputados e senadores. Terá de mudar essa postura.

É muito partido no Brasil…
Sem dúvida. Tem até o partido da mulher, que tem um representante só e é homem. Se o Temer fizer alguma coisa nesse sentido de iniciar uma reforma, palmas para ele.

Mas não caberia ao Congresso aprovar a reforma política? Aí é complicado, não?
Esse é um congresso viciado. E a cultura do toma-lá-dá-cá. E o PT também tem culpa nisso. Não dá para ser muito otimista, não. Agora, se houver reforma política, se houver um congresso melhor, pode haver espaço para o parlamentarismo. Eu sou parlamentarista. Nesse momento, é impossível acontecer uma mudança de regime, mas num outro contexto poderia caber bem para o Brasil. Se a Dilma fosse primeira ministra, ela já teria caído faz tempo.

Que tipo de líder o país precisa? A impressão que se tem é que existe uma ausência de lideranças no Brasil?
Existe mesmo. Aliás, essa falta de líderes acontece em vários campos. Mas, falando em líderes políticos, claramente temos essa ausência. Pense no passado, nos líderes que enfrentaram a ditadura, que pensaram no Brasil. Pense em Ulysses, Montoro, Tancredo, Mario Covas e até Fernando Henrique. Tivemos um elenco de líderes importantes. Depois, nós tivemos o Lula. Qualquer que seja a opinião sobre ele, não se pode negar que é um líder carismático de grande importância – embora essa importância esteja diminuindo. O Lula foi a grande e última novidade no plano da liderança, da chegada de uma pessoa de origem humilde. Mas é questão é: precisamos agora de um líder carismático? Eu acho que não precisamos. Existe uma diferença entre o líder carismático e um líder que expresse alguma coisa mais substantiva, plural. Uma liderança tecnocrática realmente não dá. Se a gente puder se livrar do carisma, que acaba levando ao fundamentalismo, é muito melhor.

Pelo o que o senhor está dizendo, precisamos mais de um bom administrador e conciliador do que um líder carismático. Mas para isso as instituições tem que estar funcionando, a começar por um congresso forte. As engrenagens serão importantíssimas para que isso aconteça, não?
A república velha, em seu caráter oligárquico, fez com que não precisasse de uma liderança. Tinha um clube de notáveis. Essa liderança carismática começou com Getúlio Vargas. A grande sacada de Getulio foi perceber que exista um novo personagem a considerar, que era a massa urbana. E ele a conduziu. Há quem compare Lula a Getúlio. Se a gente entrar numa condição de democracia normal, madura, ela exigirá um líder que tenha uma força simbólica, claro, mas sem projetos personalistas, demagogos. Isso requer, obviamente, a presença de instituições atuantes. A Europa, por exemplo, funciona muito bem hoje sem lideranças carismáticas, porque as instituições são fortes. Já teve líderes extraordinários como Churchill ou De Gaulle, mas eles surgiram em função das exigências de um tempo muito dramático, no pós-guerra. Agora, na normalidade, a exigência é menor. Mas que há carência de líderes, isso há.

A ausência de lideranças colocou a Dilma no poder?
Eu acho que a Dilma foi uma escolha depois que muitos dos candidatos do PT caíram. Teve o Dirceu, o Palocci, um número razoável de gente impedida e de gente atrás das grades. A escolha da Dilma é uma escolha da confiança do Lula em sua própria força. Os famosos postes. Ele quis iluminar o Brasil com seus postes. Deu no que deu.

Por :  DARCIO OLIVEIRA do site http://epocanegocios.globo.com/

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