Filho de Barra do Corda. Ex-usuário de drogas dedica vida a ajudar quem quer superar o vício

“Depois de 23 anos vivendo no mundo das drogas, vivendo nas ruas, eu pensava no fundo do poço todos os dias. De parar, olhar para um lugar e pensar: ‘o que eu tô olhando? Não tenho para onde ir, não tenho parente, não tenho para quem pedir socorro. Eu esperava a morte. Eu tratava ela assim: ‘a hora que você chegar, você estará me fazendo um favor. E se puder chegar agora, muito obrigada.’”

Esse foi um dos últimos pensamentos de Rosuel Lima, 50 anos, antes de iniciar sua caminhada contra a dependência química, depois de passar 23 anos no vício e vivendo nas ruas.

Livre das drogas há quase 12 anos, hoje ele usa sua experiência e dedica a vida para ajudar outras pessoas a superarem o vício, coordenando três unidades de uma comunidade de reabilitação.

Nascido em Barra do Corda, interior do Maranhão, Lima teve uma infância que pode ser considerada como normal.

Porém, perdeu a mãe aos 9 anos, não se dava bem a nova esposa do pai, que trabalhava durante quase todo o dia. Sem ter pai e mãe presentes, aos 11 anos sua vida passou a ser na rua, onde saía com amigos e sempre faltava às aulas.

Os motivos que o levaram às drogas são comuns a muitos usuários: problemas familiares e vontade de se encaixar no grupo de amigos.

A primeira experiência, e que também foi a porta de entrada para o vício, foi a bebida, que experimentou aos 12 anos. Depois de cinco anos de alcoolismo, aos 17 experimentou maconha. Depois veio a cocaína e, mais tarde, a pasta base.

O vício o fez abandonar estudos, emprego e também o afastou da família, que não aceitava seu comportamento.

Por conta das drogas, teve vários problemas com a polícia, principalmente por furtos. Em uma dessas passagens, recebeu do pai uma passagem só de ida para a casa de um tio em outro estado.

Sem interesse de ir para casa de parentes, ele saiu da cidade sem rumo e passou a viver nas ruas. Pedindo carona na estrada, passou por diversos estados e chegou a Campo Grande, onde se instalou no entorno do Mercadão Municipal, que na época era linha de trem e onde ficou per cerca de 11 anos.

Segundo ele, na Capital ele ganhava o dinheiro para sustentar o vício cuidando de carros estacionados, pedindo dinheiro a quem passava e também com pequenos furtos, além de vender entorpecente nas ruas e em porta de escolas.

As lembranças que tem dessa época são de apanhar da polícia, comer restos de comida da lixeira do Mercadão e se afundar cada vez mais nas drogas, chegando a beber álcool combustível, por ser mais barato.

Por conta da vida que levava, tentou se matar por duas vezes, sendo a primeira se jogando em frente a um carro e a segunda tomando uma cartela de remédios que encontrou na rua. Nas duas ocasiões ele foi socorrido, passou alguns dias no hospital e voltou para a rua depois de liberado.

RECUPERAÇÃO

A vida de Lima começou a mudar no dia 5 de janeiro de 2005. “Foi o dia em que tive a oportunidade de reconstruir uma vida que achava que estava perdida”, disse, acrescentando que a data é uma das mais importantes de sua vida.

Neste dia, ele estava deitado na Rua 26 de Agosto, quando um homem, até então desconhecido, passou de carro e ofereceu ajuda para levá-lo a uma comunidade terapêutica para dependentes químicos.

“Eu aceitei, mas a minha intenção era roubar o cara quando a gente chegasse no lugar”, afirma. A instituição era afastada do Centro e Lima desistiu do furto.

Quando chegou no local, decidiu passar a noite porque a volta para a cidade seria trabalhosa e distante.

“Fui muito bem recebido pela comunidade. Nunca tive ninguém que se importasse comigo e, de repente, tinha gente me perguntando se eu tava bem, me dando comida, roupas, um local para dormir. Decidi ficar por lá”, conta.

O caminho para se livrar da dependência não foi fácil e houveram duas recaídas até que ele decidiu se dedicar de fato ao tratamento.

Os principais desafios, além da vontade de usar o entorpecente, era com relação às regras do local, que Lima teve dificuldade em aceitar por sempre ter vivido sem alguém lhe dando ordens.

“Depois passei a entender que as regras faziam parte da recuperação. Nas ruas não há responsabilidade, compromisso com nada e um dos objetivos de impor horários e ter alguém fiscalizando é mostrar que é preciso assumir compromissos, respeitar o próximo e ter responsabilidades para, quando sair do lugar, o dependente saber que há regras na vida em sociedade”, explica.

AJUDA A OUTROS DEPENDENTES

Depois de terminar o período de internação, de nove meses, e sem ter familiares ou amigos em Campo Grande, ele decidiu dedicar seu tempo a ajudar outras pessoas que passavam pelo mesmo problema que ele.

Antes de iniciar nesse trabalho, ele fez diversos cursos de capacitação voltados ao trabalho com dependentes químicos.

Capacitado, tornou-se monitor da comunidade onde fez o tratamento e, depois de dois anos, alcançou o posto de coordenador da unidade. Atualmente, está a frente das três unidades existentes no Estado, sendo duas em Campo Grande e uma em Batayporã, onde mora há quatro meses.

“Eu me preparei para trabalhar com dependente químico, fiz vários cursos em São Paulo e outras capitais e venho me capacitando todo dia, até me tornar coordenador das três unidades do Esquadrão da Vida, tanto as daqui quanto as que abrir em qualquer outro lugar, vou estar coordenando esse projeto”, disse.

NOVOS DESAFIOS

Sobre o seu dia a dia, ele afirma que o fato de já ter passado pelo problema, ajuda a lidar com os desafios.

“É o que eu digo hoje, quem conhece um dependente químico, mas não sabe como é a doença, não sabe como agir. É melhor não tentar ajudar porque vai acabar atrapalhando. É melhor pedir ajuda para quem tem conhecimento nessa área ou você vai transformar o cara num delinquente pior ainda, porque você vai querer exigir coisa, vai impor o que você acha e isso não ajuda. Só uma comunidade com pessoas preparadas, que entende, que compreende essas pessoas pode ajudar”, opina.

Além do trabalho com o dependente, Lima também faz acompanhamento com a família, ministra palestras motivacionais contando sua experiência e realiza trabalho nas ruas, onde busca jovens para o tratamento, da mesma forma como aconteceu quando foi resgatado.

“Encontro forças no trabalho e nas pessoas que ajudo, porque quando um novo adicto chega à unidade, lembro que também passei por tudo aquilo e que não foi fácil me livrar, o que acaba dando forças, tanto para mim, como para o interno”, disse.

Casado e pai de dois filhos atualmente, Rosuel divide seu tempo entre o trabalho como coordenador do Esquadrão da Vida e com a família. Do passado, as lembranças ruins restaram apenas para continuar dando forças em momentos de fraqueza.

A dependência a gente combate todos os dias, porque a mente do dependente fica muito abalada. Qualquer aflição, qualquer coisa que venha de desespero, ainda vem aquela sensação de correr para o alívio e isso vai ser pra sempre. Eu fico vendo as pessoas falarem que não sentem mais nada e tenho vontade de chegar perto e falar: ‘mentiroso’.

Porque a ciência, nesse ponto, não está errada. A adicção é uma doença incurável, progressiva, que leva o cidadão à morte. O tratamento dela é até o fim da vida.

Espero que nunca aconteça, mas nunca vou dizer que estou livre para sempre. Eu estou em tratamento há 11 anos e quantos anos eu viver, vão ser os anos que ainda estarei nesse tratamento.”

Fonte: GLAUCEA VACCARI do portal correiodoestado.com.br

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