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Especial Mais IDH – Itaipava do Grajaú: Jatobá já sabe ler – barradocorda.com – Ribamar Guimarães – “o bom maranhense”
Publicado em: 29 de junho de 2018 - 09:25

Especial Mais IDH – Itaipava do Grajaú: Jatobá já sabe ler

Plano Mais IDH muda a vida de moradores em Itaipava do Grajaú. (Foto: Fellipe Neiva)

Texto: Xavier Bartaburu

“Negativo”, dizia o laudo. E foi alegria em dobro para o João: não só estava curado da tuberculose como ainda pôde ler com os próprios olhos a notícia da cura. Imagine o João três meses antes, no primeiro dia de aula da turma da professora Vanusa: os dois pulmões avariados, impossibilitado de trabalhar na roça por conta da doença – e por isso morando de favor na casa das pessoas –, e ainda analfabeto de todo. Cinquenta anos de idade e nunca na vida tinha frequentado escola. Agora o João lê laudos alvissareiros e escreve o nome completo na lousa: João Paz Amorim de Sousa. De quebra, outra alegria: mês passado, na mesma semana em que saiu o resultado do exame, apareceu lá no Jatobá uma irmã que não via há mais de 20 anos. Levou para morar junto. João agora tem pulmão, tem escrita e tem casa também. E olha que está na metade do curso: faltam ainda quatro meses para a formatura. Há muito a se aprender. Mas João acha é pouco:

– Tô ficando triste já.

E a Maria Sebastiana Sousa, colega de turma, que já está lendo a Bíblia? Fiel da Assembleia de Deus, o que ela mais queria era mergulhar nas Escrituras, poder decifrar cada palavra, do Gênesis ao Apocalipse. Começou faz pouco mais de um mês e já decodificou o Pentateuco inteiro, conforme atesta a tabelinha da igreja que o pastor ensinou a preencher à medida em que se avança a leitura. E ela tem pressa:

– Todo dia leio cinco capítulos. Já hoje vou começar o Livro de Josué. Até julho, se Deus quiser, já li tudo.

João e Sebastiana são dois dos mais aplicados entre os 21 alunos matriculados na turma da professora Vanusa, uma das sete instaladas no povoado de Jatobá, onde 118 pessoas, de segunda a quinta, tentam reduzir o histórico e crônico analfabetismo em Itaipava do Grajaú. Segundo o censo de 2010, cerca de metade dos 15 mil habitantes do município, acima de 25 anos, não sabem ler ou escrever. Ou não sabiam, pois já está na hora de atualizar esse número aí: em 2017, 988 pessoas se formaram na primeira leva do programa Sim, Eu Posso!. Em 2018, já são 2.097 alunos distribuídos nas salas de aula de 22 povoados.

Jatobá está entre eles. Além de figurar na rota da alfabetização, o lugarejo também disse adeus à poeira da antiga estrada de terra que passava por ali, aquela que na estação das chuvas fazia o pessoal subir no jumento ou na canoa para ir até a cidade, a seis quilômetros da vila.

– Aqui só andava carro de seis em seis meses, na seca. O povoado até parava para ver – lembra João.

Pois acabou a lama: em 2017, foram pavimentados os 70 quilômetros que ligam o centro de Itaipava do Grajaú à BR-226, a mesma que leva a Barra do Corda e a Imperatriz. A pista rasgou Jatobá e todo o mundo saiu ganhando, inclusive os tenazes alunos do Sim, Eu Posso!, que agora têm o asfalto para se locomover quando é chegada a hora da aula. Uns têm moto, outros bicicleta e há os que vão a pé, por conta própria ou quando Vanusa, a professora, vai lá buscar os mais fujões. Não é porque os alunos do programa são gente crescida que às vezes não se dão ao luxo de matar aula, feito criança.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Plano Mais IDH muda a vida de moradores em Itaipava do Grajaú. (Foto: Fellipe Neiva)

– Muitos trabalham na roça o dia inteiro. Quando chega de noite, estão cansados – explica Vanusa da Rocha. – Mas eu faço questão de que eles venham.

O curso de alfabetização quase sempre é na própria casa dos educadores, sala de estar transformada em sala de aula, incluindo lousa e tevê (o conteúdo do Sim, Eu Posso! é em parte transmitido por meio de videoaulas). É a solidariedade aliada ao empurrãozinho e apoio que vem de fora. Vanusa, professora faz mais de 20 anos da rede municipal, decidiu radicalizar: mudou-se para outra casa e transformou em escola o velho endereço residencial. Quebrou paredes, enfeitou as que sobraram, botou lâmpadas – as aulas são à noite e muitos alunos, idosos, têm dificuldade para enxergar –, levantou uma estante cheia de livros e ainda leva bolo de aniversário quando tem aluno fazendo anos.

– Tem gente aqui que nunca apagou velinha.

Vanusa faz parte de uma numerosa tropa de elite da educação básica maranhense, cujo pelotão em Itaipava do Grajaú é composto de 133 educadores, cada um com sua turma, e mais vinte coordenadores. Todos moradores do próprio povoado ou bairro onde ensinam – é uma forma de envolver a população local nesse colossal esforço de alfabetização e ainda aumentar um pouco a renda dos educadores: cada um recebe uma bolsa de 600 reais por mês durante os 8 meses de duração do curso.

Por habitarem o mesmo bairro ou vila que seus alunos, acontece demais de os educadores terem que alfabetizar os próprios familiares. Simone da Silva, por exemplo, tem na turma de 15 alunos o marido, Wilas, e o pai, Silvestre. A mãe, Maria Firmina, caiu na sala de Jarleane, a outra filha alfabetizada da família (de um total de nove irmãos, sete deles analfabetos). Esse analfabetismo generalizado se deu porque, no Maranhão do passado, não havia escolas públicas nos interiores: se um trabalhador quisesse dar estudo aos filhos, tinha que abrir mão de parte de sua produção para pagar o professor contratado pelo fazendeiro local para ensinar a prole. Foi assim com Silvestre: até o primeiro ano, seu pai, avô de Simone, pagou os estudos. Depois, não pôde mais.

Sobre os alunos-parentes, Simone jura que não mistura as bolas. Mesmo dando aula na sala de casa, quando chegam as sete da noite, ela vira a professora Simone. E ralha com os alunos se preciso for. O mais bagunceiro? Silvestre.

– Ele é muito interativo. Passa a aula toda conversando, contando história.

O pai se defende:

– Toda a vida eu fui assim, conversador.

Itaipava do Grajaú

Ações do Mais IDH: Escola Digna; Sim, Eu Posso!; Bolsa Escola; Arca das Letras; Força Estadual de Saúde; Mais Sementes; Mais Feiras; Sistecs; Regularização Fundiária; Programa de Aquisição de Alimentos; Programa Nacional de Alimentação Escolar; Primeira Água; Segunda Água; Água Para Todos; Saneamento Básico Rural; Mais Saneamento; Kits de Irrigação; Mais Asfalto; Minha Casa, Meu Maranhão; Cozinha Comunitária.

IDHM: 0,518
Ano de fundação: 1997
População: 14.297 habitantes
População rural: 69,9% do total
Renda per capita: R$ 136,77
População abaixo da linha de pobreza: 64,2%
Taxa de analfabetismo (acima de 25 anos): 45,9%
Mortalidade infantil: 34,1 entre mil nascidos vivos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Plano Mais IDH muda a vida de moradores em Itaipava do Grajaú. (Foto: Fellipe Neiva).

Fonte: http://folhanobre.com.br

 

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