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ESPECIAL: Centenário do poeta Luís Pires – Um Barra-Cordense no Bonfim – barradocorda.com – Ribamar Guimarães – “o bom maranhense”
Publicado em: 20 de maio de 2017 - 15:57

ESPECIAL: Centenário do poeta Luís Pires – Um Barra-Cordense no Bonfim

Primeira Parte

 

            “Assisto, assim, meu ser se destruindo,

            E nada de chorar – sempre sorrindo –

            Espero o sopro tétrico da morte”.

Assim se expressou aquele que sentiu na pele, literalmente, as piores amarguras da vida, e, o que é mais incrível, na mais absoluta e soberba resignação. Refiro-me ao poeta, jornalista, redator, editor, locutor, promolter, ator e figurinista Luís Pires, o último sabiá do Bonfim, aquele que, como poucos, soube transformar sua dor em arte, em beleza estética.

Luís Nascimento Pires nasceu em Barra do Corda, no dia 19 de abril de 1917, filho de Francisco Chagas do Nascimento, indígena egresso de Alto Alegre, e de Raimunda Oliveira Nascimento.

Naquela época, o sarampo grassava por toda Barra do Corda, de modo que a população muito sofreu com a perda precoce de seus entes queridos, sobretudo crianças. O próprio pai de Luís Pires fez o registro de alguns óbitos ocorridos no seio de sua família, sendo dois numa mesma semana. Luís Pires não teve a felicidade de conhecer seus genitores, porque aos três meses de nascido, perdeu a mãe e, um mês depois, perdeu também o pai, que faleceu em Montes Altos, município de Imperatriz. Desta forma, o pequeno Luís, órfão e sobrevivente da epidemia, foi entregue às mãos de D. Josefa Nascimento Pires, irmã de seu pai, também aborígene, e esposa de Ricardo Leão Pires, um filho de Portugal descrito por Luís Pires como sendo um “aleijadinho que se locomovia por meio de uma cadeira de rodas e lecionava para crianças” (Se bem que não chegou a conhecê-lo, visto que Ricardo faleceu em 10 de agosto de 1910).

Ardalião Américo Pires, filho do casal que o adotou e que seria mais tarde figura de destaque na vida política de Barra do Corda, foi quem inculcou nele os conhecimentos elementares e a “Carta de ABC”. Aos sete anos, matriculou-se no “Colégio São José da Providência”. Sua primeira professora foi a Irmã Rita, freira franciscana de quem guardou boas recordações. Depois vieram Irmã Estefânia e Irmã Paula, “não menos carinhosas, pacientes e boas que Irmã Rita”. Sua última professora formal foi Irmã Helena de Acaraú, sobre quem dá o seguinte testemunho: “Oh! Como gostei dos conhecimentos e ensinos desta minha ultima professora! Com ela eu aprendi a arte de representações teatrais”. Galeno Brandes, em seu magistral “Barra do Corda na História do Maranhão”, à pág. 401, diz-nos que “entre os anos de 1937 e 1943, [Luís Pires] liderou um grupo de jovens que fizeram o melhor teatro da nossa historia. No Salão Pio XI, além de dramas litúrgicos e sacros, foram apresentados espetáculos inesquecíveis, no satírico e no sentimental”.

Antes disso, isto é, em 12 de agosto de 1933, morreu também D. Josefa Pires, obrigando-o a interromper os estudos para “viver buscando aprender outros meios de enfrentar os ritmos da vida”. Assim, “cedo teve que abandonar sua terra natal e caminhar pelas estradas do mundo, exercendo, então, um sem número de profissões, inclusive a de saltimbanco da companhia circense dos Irmãos Garcia. Depois, percorreu o interior do nosso Estado, representando peças teatrais que ele próprio criava”.

De suas andanças e devido a falta do mínimo de condições de higiene, consequência direta da ausência de políticas voltadas para a saúde pública, Luís Pires contrai Hanseníase, comumente chamada lepra, morfeia e mal-de-lázaro. Doença estigmatizada desde os tempos bíblicos e tida mesmo como um castigo do céu. Por isso, nosso multifacetado artista sofreu injúrias, agravos e privações, contudo sem nunca abater-se, a inteligência sempre viva e cintilante.

Seus padrinhos, Vitória Olinda Pires e Manoel Pirangi, por causa da proximidade constante e avizinhada, logo também contraíram o mesmo infortúnio. Pirangi era homem de posses e tinha uma filha chamada Legízia, que também ficou leprosa. Vitória Pires, que mais que madrinha, era também prima/irmã, também a adquiriu, assim como seus filhos Dionéa e Juarez. D. Fausta, que também era aparentada de Luís Pires e tinha duas filhas, Raimunda e Epifânia, também contagiou-se e foi morar distante do centro da cidade, no hoje bairro “Cai N’água”, onde antigamente funcionava o depósito de dejetos públicos e leprosário. Raimunda, conhecida como Mundica da Fausta, era quem ía lá cuidar da mãe, levar comida, carregá-la nos braços até a beira do rio para o banho matinal. Epifânia, por sua vez, evitava qualquer aproximação, pois temia contaminar-se. Seu medo, porém, também foi sua fé: acabou ficando leprosa, enquanto que Mundica, que preferiu arriscar-se a ter que abandonar a mãe à própria sorte, escapou sã e ilesa. Enfim, a população barra-cordense sentia-se ameaçada por uma doença até então incurável e que se alastrava impiedosamente. Luís Pires, tornou-se, por isso, um notívago. Só saía de casa a noite para fazer serenata e beber sua “aguardente”.  Sentava-se nas calçadas, mantendo sempre distância das pessoas. Lá vinha ele todas as noites com seu copo para a casa comercial do Sr. Oton Mororó Milhomem. Enquanto despejavam o conteúdo etílico ele mantinha o copo a certa distância para que o gargalo sequer tocasse na borda do copo. Enquanto a lepra carcomia sua pele, em sua alma desabria um ileso pássaro canoro.

Luís Pires amava nossos rios. Passava boa parte do dia imerso em suas águas, apenas com a cabeça para fora. Os moradores achavam que ele estava contaminando a água. A situação foi se agravando a tal ponto que a população passou a exigir que fossem tomadas providências urgentes. “Fora com estes leprosos!” – era o grito que soava a um só coro. Entre estes estavam amigos íntimos de Luís Pires que, na sua frente, lhe asseguravam apoio e proteção, mas que, no final das contas, iriam traí-lo covardemente.

Segunda Parte

A TRAIÇÃO E A SAÍDA COMPULSÓRIA PARA O LEPROSÁRIO-COLONIA DO BONFIM.

Exibindo 2 comentários
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  1. Ana Maria Pinho disse:

    Luis Pires…Quem dera que por um descuido, Deus te fizesse eterno.

  2. Ana Maria Pinho disse:

    O último sabiá do Bonfim…que bela definição…quiçá quem o assistiu em suas horas derradeiras soubesse que a poesia perdia nesse dia um dos seus melhores discípulos..O canto desse sabiá se calou..mas ele na sua bondade escreveu tudo em folhas de papel que amareladas pelo tempo contam sua história, escreveu para que nós pudéssemos nos deleitar com o seu talento, chorar com a sua dor, e voar através das asas da imaginação sentido todo o encanto de seu idioma de poeta.Morreu como um passarinho o nosso poeta, mais deixou a melodia de seu canto impresso no papel com a força do coração escrevendo com mãos podadas.

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