gov
ESPECIAL: Centenário do Poeta Luís Pires – A Traição e a Saída Compulsória para o Leprosário-Colônia do Bonfim – barradocorda.com – Ribamar Guimarães – “o bom maranhense”
Publicado em: 21 de maio de 2017 - 09:55

ESPECIAL: Centenário do Poeta Luís Pires – A Traição e a Saída Compulsória para o Leprosário-Colônia do Bonfim

Segunda Parte

Na edição do Jornal Alvorada nº 6, de março de 1955, acha-se publicado todo o drama vivido por Luís Pires em sua saída “compulsória” de Barra do Corda, descrita pelo próprio poeta. Completa e vívida como está, sem coisa alguma termos a acrescentar que não fosse supérfluo, transcrevemos integralmente a sua “REMINISCÊNCIA!…”.

Eis o que diz o poeta Luís Pires:

“Vinte e dois de junho de 1944, oito horas da manhã! Era domingo e o sino badalava lentamente, convidando os fiéis para o santo sacrifício da missa. Oito horas! O sol parecia desmaiar em seu próprio fulgor! Naquela manhã eu devia dar adeus para sempre ao meu inconfundível torrão natal, aos meus entes queridos, aos amigos, às pessoas que me eram gratas, e mesmo aos meus próprios perseguidores, a quem cada vez que me premiavam com suas calúnias, eu compensava com o meu perdão.

            O momento se aproximava, e já uma massa compacta se encontrava frente à minha residência, esperando a hora da despedida. A passos lentos, encaminhei-me para o porto de embarque acompanhado daqueles que sempre me foram complacentes.

            Embarquei! E de dentro daquele esquife-canoa que boiava nas águas cristalinas do meu saudoso rio Corda, e que havia de conduzir-me à “tumba dos mortos vivos”, hoje “cidade da esperança”, dirigi o olhar para os horizontes cordinos, e, com o coração lanhado, balbuciei algumas palavras de despedida. Enquanto alguns que compartilhavam da minha dor se debulhavam em lágrimas, eis que:

            – “Larga o cabo, Caetano!” – Era o velho Pedro[1] quem falava; aquele velho que tanto me prometera bondades, e que transformou as suas promessas num cálice de amarguras, durante o percurso daquela enfadonha viagem.

            – “Larga o cabo, Caetano!” – E o Caetano largou o cabo!…

            O esquife se afastou e deixou-se levar ao sabor das pequeninas ondas que lhe batiam no costado. Estava se dando início a partida. Ou melhor, iniciava-se o cortejo fúnebre!…

            O esquife se afastava cada vez mais e não dispunha de pressão para, com um apito saudoso, corresponder ao aceno de lenços que tremulavam no ar. Adeus!

            Enxergando ainda a humildade nos olhos daqueles que de mim se compadeciam, virei-me para contemplar pela última vez o portinho onde por muitos anos matei o calor que me envolvia nas horas calmas, e ali avistei três vultos que, apesar das lágrimas que já me perturbavam a visão, não deixei de reconhecer. Eram duas velhinhas de cabelos brancos e um homem de boa estatura, cabeça calva, porém dotada de inteligência.

            As duas primeiras fitavam o céu na ganância de avistarem o próprio Deus, para melhor lhe recomendarem este que partia para não mais voltar. – Eram minhas tias[2].

            O terceiro portava-se firme no seu papel de homem. A sua face mostrava a palidez de uma flor de abóbora, denunciando o sentimento que lhe assomava a alma. – Era meu padrinho[3].

            Um soluço se estancou em minha garganta, e não pronunciei uma palavra sequer, apenas lhe acenei com um cadáver de mão[4]; enquanto o ataúde se distanciava cada vez mais, governado pelo “jacumã” impulsionado pela impetuosidade dos braços de seu mestre.

            Ao passarmos pelo cemitério recitei uma prece em favor daqueles que ali jaziam, e lancei o último olhar para a minha cidade natal. Já não mais avistei o longo de suas ruas e nem a estrutura de seus luxuosos edifícios. Avistei apenas os tetos das últimas casinhas de palha, e, acima destes, no topo da serra, os longos braços de um cruzeiro ali edificado. Lembrei-me da paixão de Cristo, e dentro da minha paixão, abracei a minha cruz e prossegui a minha via dolorosa, aguardando a metamorfose das promessas do velho Pedro.

            Oh reminiscência!… Oh, Deus Onipotente: ainda terei o prazer de avistar a minha querida terra e abraçar os meus íntimos?

            A Tua resposta é o silêncio; porque o Teu poder é grande. Oh, Deus! – Que todos os que vivem na minha recordação, participem das tuas graças, Senhor! Edifica Tua morada no coração do povo de minha querida terra, para que ele possa crescer na paz e no progresso espiritual!

            Barra do Corda! Tapete verde do meu agreste sertão alcatifado de flores! Rios e regatos cristalinos de meu torrão bendito! Por vossa causa transformei o meu coração numa redoma de saudades e meus olhos numa cacimba que vive a verter as lágrimas da minha reminiscência!… Da minha saudosa reminiscência!…

POEMAS 

Luar de Setembro 

Castelo de sonho que no céu vagueia,

Deslizando no azul, vai, lentamente.

E a terra toda de esplendor é cheia

Da luz serena do fulgor luzente. 

Fagueira brisa no ramal rodeia,

Brincando à luz da lua sorridente,

Que pouco a pouco o seu brilho se enleia

Já por trás das cortinas do poente.

 

Em todo o mundo uma tristeza cresce,

Enquanto alua, preguiçosa, desce,

Desprende a terra do fatal clarão.

 

E o véu negro, depois da claridade,

Encontra em cada canto uma saudade

E em cada ser humano uma ilusão.

Resignação

Enquanto a morte aos poucos vem chegando,

Integrado no rol dos conformados,

Com o restinho dos dedos torturados,

Seguro o meu cigarro e vou fumando…

 

Assim a vida amarga vou levando!

No decorrer dos dias malfadados,

O meu pranto é cantar versos rimados

Nas tábuas de um caixao, tamborilando…

 

Assisto, assim, meu ser se destruindo,

E nada de chorar – sempre sorrindo –

Espero o sopro tétrico da morte.

 

Pois lá, na doce paz da sepultura,

Não sentirei jamais tanta amargura,

Nem farei versos a zombar da sorte. 

Terceira Parte

O ISOLAMENTO SOCIAL E A LUTA POÉTICA NO BONFIM

[1] Trata-se de Pedro Lau, o “amigo” que, mesmo não sendo canoeiro, aceita a pérfida missão de escoltar o poeta compulsoriamente até Arari, em troca de boa recompensa.

[2] Madalena e Fausta. Esta foi esposa de Manoel Pirangi, do qual teve duas filhas: Raimunda, conhecida como Mundica da Fausta, e Epifânia, hanseniana que pouco depois também foi para o Bonfim.

[3] Manoel Pirangi

[4] Há relatos de que a partida do poeta não foi amistosa. Conta-se que Luisinho Pires, enquanto afastava-se do porto Zeca Trajano, vociferava contra o delegado major Nogueira, responsável por seu exílio no Bonfim. KC.

Exibindo 3 comentários
Dê sua opinião
  1. Ana Maria Pinho disse:

    Luís Nascimento Pires. Que a imortalidade de teus escritos nunca mais venham a ficar velados pelo esquecimento, pois colocastes no papel a grandeza de teus sentimentos..emocionas quem te lê, Filho de Barra do Corda. Que teu povo e todos nós que conhecemos a tua história e obras sempre tenhamos, em mente o homem Forte que fostes. A Dor, a saudade, e o sofrimento eles te venceram o corpo físico, mais o coração..ah esse se manteve forte até o fim no Amor e na emoção que sabias transmitir como ninguém.

  2. Wilson F Leite disse:

    Eu era apenas um garôto em Barra do Corda, mas lembro de uma sonharo contando a história desse cidadão Luisinho, que teve um desentendimento com um frade e o mesmo dicere que seu fim seria a lepra.

Deixe um comentário

XHTML: Você pode usar essas tags html: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Facebook