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Barra do Corda : Dentro e Fora de Nós – barradocorda.com – Ribamar Guimarães – “o bom maranhense”
Publicado em: 4 de maio de 2018 - 14:10

Barra do Corda : Dentro e Fora de Nós

Barra do Corda tem a nobre dádiva de fazer vir à luz este dia – 03 de maio – tal qual uma oferenda de cheiro suave sobre o alto do Calvário, sem qualquer estereótipo ou repetição ritualística. Pois aqui, nesta cidade, cada dia nasce outro, insuspeitado, belo e único.

Hoje Barra do Corda completa 183 anos. Não é mais uma menina. Apesar do inquebrantável saudosismo que constitui a própria essência de nossa gente. Um passado riquíssimo que persiste e que aprendemos a amar sem quaisquer contornos ou próteses que pudessem justificá-lo.

A propósito, quando eu era menino lembro-me que Barra do Corda era para mim apenas a rua Rio Xingu – meu microcosmo – onde cresci, com sua constelação de moleques empinando “suro”, soltando traques e pega-moleques, e as mães com cipós em riste, gritando: “passa pra dentro, menino!”. As fofocas passavam de casa em casa sem nenhum transtorno, despontavam junto à manhã com as galinhas ainda a ciscar no quintal. E eu, brincando na rua de peteca, enquanto mamãe preparava o almoço. Dona “Nega”, a professora, congregava as crianças em sua casa para auscultar nosso desempenho na carta de abc. Quando errávamos recebíamos, de mãos espalmadas, o castigo da “Madalena” – como era chamada a palmatória. Brincávamos de cai-no-poço, da pata e de esconde-esconde. Quando não havia asfalto podíamos “comer peixe” enfiando o triângulo (que não tinha esse formato) na areia, depois das chuvas. Costumávamos pegar “bicuda” nas carroças que transitavam desajeitadas por ruas dantes nuas. A rua era nosso mundo, onde vivíamos sem sobressaltos. A chegada do circo, no entanto, causa-me uma mescla de alegria e medo. Medo porque fazia-me lembrar do dia em que um palhaço, atado a uma enorme perna de pau, atravessara a rua, enquanto eu voltava da quitanda do Seu Zezé levando um “mercado” de manteiga. Assombrei-me, pois para mim era como um gigante prestes a me pisotear.

De repente acordei e vi-me noutra cidade. Dilatada, robusta e promissora. Barra do Corda cresceu. O asfalto encobriu com seu negrume aqueles idos saudosos. Contudo, ainda podemos ouvir o seu latejo a embriagar-nos de vertigem. Esses tempos não estão mortos, coexistem no presente, respiram conosco, crescem com o tempo.

Sim à Barra do Corda de Olimpio Cruz, sublimada e elevada a mito em seus fragrantes versos, enriquecendo nosso imaginário, viscerando o orgulho de ser cordino. Ainda que no presente reclame ela vozes outras, novos mitos insurjam e reivindiquem novas manifestações artísticas, novas formas de dizê-la, de iluminá-la.

Barra do Corda está em cada passo que transita na rua e que nela repercute. A brisa soprando nos bambus, o sol tateando o mármore da Matriz, a azáfama do tráfego matutino, as diversas vozes que dela ecoam vão compondo o que há de cordino em cada um de nós. Estamos em cada um de seus odores, em cada uma de suas frutas, de seus semáforos, de seus rios, compondo a sinfonia de suas águas. Somos seus múltiplos barulhos. Barra do Corda não é singular, é plural. Somamos às dela as nossas vozes, e assim nasce o cordino desse diálogo.

“Até ao barro me Barra

esta Corda onde moro. 

Tudo me acorda

e mearinha nesta Barra,

até o barro.” 

Assim segue o rio. Assim seguimos molhados e embalados nos úmidos braços desse “Rio Conjugal”. Nossas angústias nele mergulhadas vão escrevendo suas gotas, avolumando suas águas. Pois não há dor tão funda que não possamos entregar ao rio. Tens alguma inquietude?… O rio leva! Não consegues esquecer as duras palavras que o atingiram?… O rio leva! Mas não confidencie nada de imediato ao Mearim. O Mearim é um velho austero que de tanto ouvir rumores, turvou-se. Contudo, podes depositar tuas dores pacificamente junto ao Corda, cuja virilidade desata qualquer problema. Destarte, o Corda corre e vai dizer baixinho ao Mearim – porque ambos não guardam segredo – as coisas que não conseguiríamos contar sem turvar ainda mais as suas águas. As árvores que se debruçam às suas margens vão ouvindo nossas conversas. Até mesmo os pássaros, ao pousar em seus galhos, ficam a par de tudo. O rio quer passar… reféns, passamos.

“nunca fui

de pronunciar rio 

preferi antes

o minuto de silêncio 

sempre dei asa

à pausa 

tudo o que digo

cabe só

no meu umbigo 

rio é passar

performance do espaço

quando o tempo

é puro aço 

o rio passa

eu passeio 

ainda passará

quando eu for

passarinho” 

O rio abriga nossas vozes e afagos; nossa infância, nossa família e nossos amores. O Corda é mais que a corda que nos ata à Barra. Viver aqui é não ter subterfúgios; é acordar e ver o Corda mearinhado ao Mearim.

“e este rio metido

no meu gasto mensal

no meu pé de meia

na minha meia verdade 

metido

na minha cara a tapa

no meu preço a prazo

no meu saldo devedor

no meu queima total 

e agora fervendo

na gema

do meu poema”

Barra do Corda pequena. Barra do Corda querida. Barra do Corda pequena demais para em seu bojo conter-nos, que o coração cordino é enorme e não pulsa em qualquer peito. Mas que outra maneira existe para mantermo-nos unidos, seguros, senão estreitando esse amorável abraço com o qual nos acalentam os rios Corda e Mearim? Porque a luta da cidade é braba, e estar longe da Barra é que é, de fato, uma barra.

Parabéns, Barra do Corda, pelos seus 183 anos!

Exibindo 1 comentário
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  1. Elis Duarte disse:

    Minha terra amada….tbm cresci na rua Rio Xingu e tbm conheci o mercado do Zezé.

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