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A inacreditável história de Carlos Lamarca no interior do Maranhão, oito meses antes dele ser assassinado pela ditadura – barradocorda.com – Ribamar Guimarães – “o bom maranhense”
Publicado em: 14 de novembro de 2020 - 15:09

A inacreditável história de Carlos Lamarca no interior do Maranhão, oito meses antes dele ser assassinado pela ditadura

Arquivos do SNI reportam que o temido capitão que desertou do Exército com armas em 1969, teria se refugiado, no início de 1971, na cidade de Barra do Corda, onde ficou durante duas semanas. O poeta e escritor Olímpio Cruz e o futuro prefeito Fernando Falcão teriam sido seus contatos no município. Famílias consideram a história fantasiosa


(Foto: Reprodução | Arquivo Folhapress)

Por Olímpio Cruz Neto, especial para o 247

No início de 1971, o ex-capitão Carlos Lamarca, o guerrilheiro mais temido pela ditadura militar – sua mira com uma arma se tornou lenda na esquerda brasileira –, teria se hospedado no Hotel Falcão, em Barra do Corda, no interior do Maranhão. Ali, o homem que se tornou herói para a esquerda e traidor para os militares, teria se encontrado com Fernando Falcão, Wagner Baldez e o poeta Olímpio Cruz, além de José Celestino da Silva. Durante 16 dias, Lamarca permaneceu escondido na residência de Amélia Teixeira, onde manteve em contato com Olímpio Cruz, Baldez e Fernando Falcão. Nove meses depois, em 17 de setembro daquele mesmo ano, foi assassinado pela ditadura com cinco tiros, disparado pelo então major Nilton Cerqueira, no sertão da Bahia. Lamarca tinha 33 anos e já havia deixado a Vanguarda Popular Revolucionário (VPR)  para ingressar no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8). 

SUSPEITOS | Fernando Falcão (à esquerda de camisa listrada) e o poeta Olímpio Cruz são citados em arquivo do SNI como “agitadores comunistas” que mantinham contatos com o guerrilheiro Carlos Lamarca

SUSPEITOS | Fernando Falcão (à esquerda de camisa listrada) e o poeta Olímpio Cruz são citados em arquivo do SNI como “agitadores comunistas” que mantinham contatos com o guerrilheiro Carlos Lamarca(Photo: Álbum de Família)

Apesar de surpreendente, a história sobre a presença de Lamarca no interior do Maranhão é absurda. A descrição é estapafúrdia e jamais houve qualquer menção ao episódio nas biografias do ex-capitão do Exército, lançadas ao longo dos últimos 40 anos. Lamarca nunca esteve em Barra do Corda. Durante todo o ano de 1971, correu de aparelho em aparelho – como eram chamados os imóveis usados pela guerrilha nas cidades –, cruzando capitais e esconderijos até se embrenhar pelo sertão baiano. A simples menção a Lamarca parece ampliar a sua importância e coloca sobre os ombros do capitão uma aura de super-homem. 

A história é fantasiosa para a família de Fernando Falcão e era desconhecida para a minha até pouco tempo. Nem mesmo como lenda chegou ser citada e jamais foi tema nos almoços de família, sempre marcados por conversas sobre política, tendo em vista a atuação de meu pai, o jornalista Nonato Cruz – ele próprio vigiado de perto pelos órgãos de inteligência durante nada menos do que 30 anos – de 1959, quando se tornou presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), até 1989, quando assumiu a direção da Confederação dos Servidores Públicos do Brasil (CSPB) e da Confereração Latinoamericana e do Caribe de Trabalhadores Estatais (CLATE). Era sobre ele que eu fazia pesquisas nos arquivos da ditadura.

A denúncia da agitação comunista no Maranhão, que ganhou força como um mantra durante todo o regime militar, mas mesmo antes, durante o final dos anos 50 até 1964, moldou relatórios de inteligência com boatos e denúncias vazias. Se o adversário político ou o sujeito por quem se nutria antipatia se descuidasse, poderia cair numa armadilha montada por um desafeto dedo-duro. É mais ou menos isso que ocorreu com Fernando Falcão e Olímpio Cruz, meu avô. Nenhum dos dois foi militante do Partido Comunista. Ambos jamais tiveram inclinação esquerdista. Mas a ficha deles ficou indelevelmente manchada até o final da década de 70. Tudo por conta dessa história com ares de ficção.

O documento original (fac-símile acima), que conta o relato da presença de Lamarca é o Informe 08/72/ASI/Incra, datado de 31 de janeiro de 1972. Nele, a Assessoria de Segurança e Informações do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) – o braço do famigerado e temido Serviço Nacional de Informações (SNI) – relata as atividades do então presidente do Sindicato Rural de Barra do Corda, Raimundo Ferreira de Araújo. O informe tem 18 páginas e integra o dossiê sobre o sindicalista, que teve todos os passos constantemente vigiados pela ASI no ano anterior, preocupada com a atuação de Araújo, que lutava por melhores condições de trabalho e de vida para os trabalhadores rurais da região.

Trecho do relatório que cita a presença de Lamarca na região e a atuação de Fernando Falcão e Olímpio Cruz.
Trecho do relatório que cita a presença de Lamarca na região e a atuação de Fernando Falcão e Olímpio Cruz.

No dossiê sobre Araújo, os registros sobre a passagem de Carlos Lamarca por Barra do Corda, com a cobertura de Fernando Falcão, descrito no informe como “agitador comunista”, não trazem nenhuma prova de materialidade. Sequer citam a origem ou sinalizam com precisão as datas sobre aquela denúncia. A história claramente surgiu como boato e ganhou ares de verdade quando passou para  o registro nos relatórios de inteligência dos órgãos de repressão do governo.

Fernando Falcão passou a ser alvo de vigilância constante, tendo ganhado ele próprio um dossiê para chamar de seu. Mesmo depois de ter sido eleito prefeito de Barra do Corda pelo MDB em 1972, o Infão 267/117/AFZ, de 9 de agosto de 1977, do SNI, coloca objeções à sua nomeação como diretor-executivo do Projeto Integrado de Colonização (PIC) de Barra do Corda, cargo do Incra. O regime militar manteve-o permanentemente sob vigilância tratando-o como “agitador”. Insinuou até que gostava de beber com os amigos às custas dos cofres públicos.  Na falta de provas, insinuações maldosas. Parece o mesmo método adotado nos tempos atuais contra os adversários do governo de plantão. 

“Agitadores comunistas”

O episódio, contudo, deixou marcados tanto Fernando, quanto José Celestino, Baldez, que era funcionário dos Correios e Telégrafos, e o velho indigenista Olímpio Cruz – que em 1971 já era um intelectual prestigiado e cuja poesia era conhecida em todo o Estado do Maranhão, tendo lançado já pelo menos dois livros importantes: Puturã (1946) e Canção do Abandono (1953). Todos passaram a ser descritos como “agitadores comunistas”. 

A expressão é repetida em inúmeros outros documentos e relatórios classificados do SNI ao longo de cinco anos. Até 1977, relatos dos órgãos de inteligência citam sempre o fato. Em todos os sete arquivos digitais pesquisados apenas sobre a acusação a Olímpio Cruz, apenas em um deles há o relato de que a história não se confirmou. Mas entre 1972 e 1978, a passagem de Lamarca por Barra do Corda foi replicada por órgãos da repressão inúmeras vezes, sempre recorrendo ao relato do Informe 08/72, emitido pela ASI do Incra em Barra do Corda. O episódio passou à lista de problemas da região.

Documento Lamarca 5

Em um dossiê sobre “Problemas de Terras”, um longo relatório de 127 páginas montado pelo próprio SNI cobrindo um período que vai de 1970 até os primeiros meses de 1972, o episódio de Lamarca volta a ser citado como registro das “irregularidades em Barra do Corda”, envolvendo o sindicalista Raimundo Ferreira Araújo e todos os citados. Curioso que o episódio seja registrado neste dossiê sobre “Problemas da Terras” como tendo ocorrido em “novembro de 1971”, quando Lamarca já estava morto, assassinado pela ditadura militar.

No relatório, os conflitos de terra são descritos como uma ameaça à estabilidade política do país. “Os conflitos gerados pela posse da terra, verificam-se sempre quando numa região ha uma repentina melhoria das condições sócio-econômicas”, diz o documento à página 4. Segundo o dossiê, Araújo era um agitador que recebia orientação política de Wagner Baldez, funcionários dos Correios e Telégrafos, cuja atuação crítica na imprensa maranhense, particularmente na capital, São Luís, expunha as autoridades à desmoralização. Essa era a principal acusação a ele.

La Rocque sob suspeita

Mas, pior, Baldez mantinha vínculos políticos, de acordo com o Informe 08/72/ASI/Incra com o então deputado federal Henrique de La Rocque Almeida, que era ninguém menos do que um parlamentar ligado à Arena, o partido que apoiava a ditadura militar. La Rocque depois se elegeu senador da República pela Arena até 1980, quando ingressou no PDS, a legenda que apoiava o governo de João Figueiredo, o último general presidente do regime militar. As acusações ao meu avô e a Fernando Falcão, as figuras que destaco aqui, porque conhecia bem a ambos, parecem estapafúrdias.

Curioso é que Olímpio Cruz, que na juventude chegou a ser seduzido pelo integralismo de Plínio Salgado, o movimento de extrema-direita que dividiu o país nos anos 30 – como nesses tempos de Bolsonaro – entre “nós” (patriotas) e “eles” (comunistas) – foi quem propôs que, em 1972, fosse concedido o título de cidadão honorário de Barra do Corda ao presidente da Funai, General Bandeira de Mello. A proposta foi aprovada por unanimidade pela Câmara Municipal de Vereadores de Barra do Corda, onde Olímpio exercia o mandato pela terceira vez como vereador. Ainda no final de 1971, ele deixaria a cidade para viver em Brasília, onde permaneceu morando até morrer em 1996.

A acusação de esquerdista ou agitador comunista desmerece o fato de Olímpio Cruz ter sido sempre um nacionalista convicto, defensor dos índios e da natureza, tendo vivido por mais de 30 anos com os povos Kanela, Krahô, Gavião, Guajá e Guajajara, entre os estados do Pará e do Maranhão. Era tão nacionalista que tinha um pássaro que cantava a introdução do Hino Nacional. 

O escritor e jornalista Nagib Jorge Neto chegou a lembrar do episódio ao escrever sobre a morte do poeta em 1996, recordando o tempo em que o velho Olímpio Cruz se viu às voltas com a perseguição política ao filho mais velho, que havia escapulido por pouco, em 1964, de cair nas garras dos militares: “Então chegou um inquisidor no antigo SPI e passou a vasculhar gavetas, remexer papéis. Mas havia, na casa ao lado,  um passarinho que cantava o Hino Nacional, e não deu outra: foi levado para o SPI. O oficial ficou admirado e pediu pro poeta o passarinho – um corrupião. Só sei que foi assim que terminou o inquérito, afinal o acusado era um patriota”.

* Olímpio Cruz Neto, 53 anos, é jornalista, com passagem por jornais como Correio BrazilienseO GloboFolha de S.Paulo e Zero Hora. Foi secretário de Imprensa da Presidenta Dilma Rousseff entre 2014 e 2015 e assessorou políticos e ministros de Estado.

As informações são do site de notícias:

https://www.brasil247.com/

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