gov
120 anos sem Isaac Martins – barradocorda.com – Ribamar Guimarães – “o bom maranhense”
Publicado em: 13 de agosto de 2018 - 17:18

120 anos sem Isaac Martins

Dr. Isaac Martins dos Reis, em 1891 (foto extraída do livro “A esfinge do Grajaú” de Dunshee de Abranches).

*Por Kissyan Castro

Não poderia deixar passar este 13 de agosto sem trazer à memória a figura inolvidável do magistrado, educador, jornalista, orador e ativista político Isaac Martins dos Reis, que se contentava em autodenominar-se “vaqueiro de Loreto” e que deixou essa existência há exatos 120 anos.

QUEM FOI ISAAC MARTINS?

Para Melo e Albuquerque, Isaac Martins foi um dos “únicos que já se atreveram a lavar em público a toga de nossa Magistratura da Roça”.[1]

Para Dunshee de Abranches, “Isaac Martins era incontestavelmente um dos homens de mais puro e rígido caráter entre os meus contemporâneos. Tinha uma só palavra. Quando a empenhava, não havia interesse nem afeições que o fizesse recuar”.[2]

Durante trinta anos o capitão Domiciano Martins dos Reis, natural do Piauí, foi militante do partido conservador. Casou-se com D. Ana Joaquina de Jesus, em São Félix de Balsas/MA, em 1840, indo pouco tempo depois trabalhar de vaqueiro no sertão de Riachão/MA, de onde então voltou para exercer o mesmo ofício na aldeia do cunhado, o Cap. Joaquim Henrique de Macedo. Passados alguns anos, veio a ser vaqueiro do Cel. José Pereira da Silva, na Fazenda Santo Antônio, no lugar Matogrosso, município de Loreto/MA, onde, no dia 18 de abril de 1854, nasceu Isaac Martins dos Reis.

Por ocasião de uma desobriga em Matogrosso, no dia 12 de abril de 1856, o pequeno Isaac foi solenemente batizado com imposição dos santos óleos pelo padre Alexandre da Silva Mourão, vigário da Freguesia de São Félix de Balsas. Foram seus padrinhos Plácido Ribeiro Antunes de Macedo e D. Izabel Brígida da Purificação.

Criador de gado e família numerosa, o pai descuidara-se da educação dos filhos. Até aos vinte anos, Isaac não sabia ler nem escrever. Estimulado por um episódio em que o pai perde uma questão de terras e lamenta-se não ter tido nenhum filho letrado que pudesse defender os interesses da família, resolve vender todo o seu gado e aplicar o dinheiro na própria educação.

Fez o curso fundamental em Caxias/MA, e o preparatório em Teresina/PI, sendo aprovado plenamente no dia 5 de dezembro de 1875. Matriculou-se então na Faculdade de Direito do Recife/PE, onde obteve o grau de bacharel em 16 de novembro de 1883. Antes, porém, ainda no 4º ano de Direito, pleiteia junto ao então presidente da província, o Desembargador José Manuel de Freitas, o lugar de promotor público da comarca de Barra do Corda:

“O presidente da província, visto lhe haver o acadêmico do 4º ano de Direito Isaac Martins dos Reis requerido o lugar de promotor público da comarca de Barra do Corda, resolve atendê-lo, e o nomeia para o referido lugar, ficando exonerado o cidadão Anastácio Martins Jorge, que o exercia”. (Publicador Maranhense, 28 de março de 1882).

Nomeado por portaria de 21 de março de 1882, Isaac Martins assume o cargo no dia 5 de abril de 1882, após ter prestado juramento.

No ano seguinte, entra em séria desavença com o Frei José Maria de Loro e sua metodologia catequética, pois, compreendendo que a submissão compulsória dos índios a um aldeamento mal administrado e sem oferecer as mínimas condições de vida constitui-se na pior das escravidões e animalizações, protesta contra a ineficiência administrativa da colônia “Dois Braços”, denunciando nos jornais até mesmo a existência de crimes bárbaros em nome da fé, antevendo o fim daquele empreendimento, o que de fato ocorreu não muito depois.

Pretendendo lançar-se candidato a Deputado Geral da Província e temendo que o seu ofício incompatibilizasse com o seu intento, pede exoneração do cargo de promotor público de Barra do Corda, o que lhe foi concedido no dia 13 de maio de 1884. Tudo leva a crer que a rivalidade ao deputado Francisco de Araújo Costa, que desde sua chegada à comarca se havia mostrado um verdadeiro déspota, o tenha estimulado à luta por um espaço na tribuna da Assembleia Provincial, para assim melhor defender os interesses do Partido Liberal, de que fazia parte.

Convencido de que a educação e instrução do povo são os únicos meios a empregar-se para melhorar a sociedade e elevar-se o seu nível moral e intelectual, o Dr. Isaac Martins resolveu dedicar uma parte da sua atividade ao ensino do povo, especialmente da mocidade. Envidou esforços para conseguir com o valioso concurso de alguns amigos prestimosos a criação em Barra do Corda de uma associação cujo único fim seria o ensino gratuito do povo, por meio de conferências públicas aos domingos e aulas noturnas para os meninos, moços e operários pobres. Fundou então, em 10 de maio de 1882, a “Associação Auxiliadora do Ensino Popular”, e, no dia 6 de janeiro de 1884, abre as portas do “Colégio Popular”, primeiro estabelecimento de ensino primário e secundário havido em Barra do Corda.

Em 31 de outubro de 1885, é nomeado Juiz Municipal e de Órfãos do termo de Loreto/MA, mesmo cargo que, posteriormente, exerceu em Barra do Corda.

Antigo liberal, muito antes do memorável 15 de novembro de 1889, fez a sua profissão de fé republicana. Ainda estudante, envolveu-se nas lutas políticas, então renhidas e sangrentas no sertão maranhense, lutas que ficaram conhecidas pelos monstruosos crimes do Grajaú e durante os quais o seu ardor cívico nunca esmoreceu na defesa dos oprimidos, merecendo o respeito e a admiração dos seus próprios adversários.

Em 1888, após a abolição, que dia a dia pregava, sustentando formidáveis campanhas que ficaram memoráveis na história do Maranhão, publicou um manifesto republicano com Rocha Lima e Dunshee de Abranches, e com este seguiu por todo sertão a serviço de propaganda, fazendo meetings, fundando clubes e organizando o partido histórico que, meses mais tarde, empenhava-se nos pleitos eleitorais. A 12 de novembro desse mesmo ano, fundava “O Norte”, a primeira folha de propaganda republicana no Maranhão, ocupando o lugar de redator-chefe. Como jornalista, magistrado e político, professou sempre as ideias as mais adiantadas.

Proclamada a República, é nomeado Juiz de Direito da Comarca de Riachão. Em 12 de outubro de 1891 assumiu o exercício do cargo de Juiz de Direito da Comarca de Barra do Corda.

O Maranhão deu-lhe um lugar de Senador no Congresso Constituinte, onde ocupou o lugar de 1º Secretário. Depois de promulgada a Constituição de 4 de julho, o Dr. Isaac voltou a Barra do Corda a fim de reassumir a Vara de Juiz de Direito. Nesse posto o encontrou a deposição do governo do Estado, contra a qual protestou, e em ofício dirigido ao Cap. Ten. Belfort Vieira ratificou o seu protesto. Sobre este acontecimento comentou Domingos Vieira Filho, dizendo que Isaac Martins “não reconheceu a autoridade de Belfort Vieira, declarando alto e bom som que no regime republicano somente por eleição e nunca por aclamação poderia haver investidura num cargo eletivo. Pagou esse rasgo de intrepidez e coerência jurídica com a suspenção de suas funções judicantes, ficando o resto da vida na condição de avulso, porque não era do seu feitio cortejar os poderosos, andar babujando sandices nas antecâmaras palacianas para lisonjear o mandonismo”.[3]

O seu partido o apresentou candidato à Deputado Federal pelo 2º distrito nas eleições de 31 de dezembro de 1896, e indicou novamente o seu nome ao eleitorado para idêntico cargo, no pleito de 4 de julho de 1898.

Em viagem a São Luís, em fins de julho, para tratar de negócios particulares, acabou contraindo a enfermidade que o vitimaria. Apesar de todos recursos da ciência médica e o desvelo dos familiares e amigos, em cujas casas esteve enfermo, Isaac Martins faleceu às nove horas da manhã do dia 13 de agosto de 1898, em casa de Agripino Azevedo, na antiga Rua das Barrocas.

Este logradouro, a partir de 1921, passou a denominar-se “Rua Isaac Martins” pela Câmara Municipal de São Luís, atendendo a um pedido formulado pela “Revista Maranhense”, na pessoa do poeta grajauense Sousa Bispo, seu extremoso admirador e biógrafo.

Em Barra do Corda, Isaac Martins é nome de rua e também Patrono da Cadeira nº 12, ocupada atualmente pelo poeta Assis Soares.

Autógrafo de Isaac Martins (acervo pessoal).

 

 

 

 

[1] Diário do Maranhão, 30.nov.1885, p.2.

[2] ABRANCHES, Dunshee de. A Esfinge do Grajaú. São Luís: Alumar, 2ª ed., 1993, p. 144.

[3] FILHO, Domingos Vieira. Breve História das Ruas e Praças de São Luís. Maranhão, 2ª ed., 1971, p. 100.

Deixe um comentário

XHTML: Você pode usar essas tags html: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Rádio

Enquete

COMO VOCÊ AVALIA A ATUAL ADMINISTRAÇÃO DE BARRA DO CORDA?

  • PÉSSIMO (46%, 25 Votos)
  • RUIM (26%, 14 Votos)
  • BOM (17%, 9 Votos)
  • EXCELENTE (6%, 3 Votos)
  • REGULAR (6%, 3 Votos)

Total de votantes: 54

Carregando ... Carregando ...

Videos

Facebook