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Quatro poetas e uma surra “POR ENGANO” – barradocorda.com – Ribamar Guimarães – “o bom maranhense”
Publicado em: 30 de abril de 2018 - 22:05

Quatro poetas e uma surra “POR ENGANO”

Das muitas histórias facetas que sobre o poeta se tem difundido, a que envolve um espancamento sofrido em Manaus, talvez seja a mais revoltante e controvertida. O incidente fatídico ocorreu na Avenida Tarumã, bairro do Mocó, na madrugada do dia 13 de outubro de 1913.

O caso foi noticiado no “Jornal do Comércio”, de 15 de outubro de 1913:

“O CHEFE DE POLÍCIA PÕE NA RUA, A BEM DA MORALIDADE, UM DOS AGENTES DE SEGURANÇA: O Dr. João Lopes Pereira, chefe de polícia, exonerou ontem a bem da moralidade e serviço públicos, o agente do bairro do Mocó, de nome Hermógenes Alves de Oliveira, que, na noite deanteontem, espancara o sr. Maranhão Sobrinho. O ex-funcionário acha-se detido. Sobre o fato foi ontem aberto inquérito na segunda delegacia”.

Este ato de violência, dada a consternação geral, ganhou inclusive repercussão na imprensa de Pernambuco:

“MANAUS, 17. – O chefe de polícia desta capital demitiu, a bem do serviço público, mandando processar, o agente Hermógenes de Oliveira, autor do espancamento que sofreu o poeta Maranhão Sobrinho” (Jornal do Recife, 18 de outubro de 1913).

De minhas incursões ao Arquivo Público do Estado do Amazonas, encontrei, no Livro de Ocorrências da Chefatura de Polícia nº 5, de 1913, o seguinte expediente:

“Às 10 e ½ horas da noite de 13 do corrente [outubro], Gabriel Praxedes, anspeçada do Batalhão de Segurança do Estado, comunicou à Delegacia de Polícia do 2º distrito que, na avenida “Tarumã”, um homem e uma mulher promoviam desordens. A autoridade de permanência, providenciando sobre este fato, a fim de ser apurada a veracidade do mesmo, mandou uma praça em companhia do comunicante ao referido local, os quais, voltando à Delegacia, às 11 horas mais ou menos, trouxeram preso o Sr. Maranhão Sobrinho que declarou, ali, haver sido espancado pela praça mencionada de ordem do agente Hermógenes Alves de Oliveira, que o prendera”.   

Este registro mostra o abuso de autoridade como única motivação da agressão infligida ao poeta.  O agente de polícia Hermógenes Alves de Oliveira teria usado do expediente da força para coibir a algazarra supostamente provocada pelo poeta, ainda que não esteja bem clara a relação entre Maranhão Sobrinho e o homem denunciado. Se o poeta era o mesmo homem acusado de desordem, isso era perfeitamente coerente com sua índole baderneira, afeita a rompantes audaciosos, ainda que intermitentes, sobretudo quando embebedado, como o prova um episódio em São Luís em que os vizinhos da “República Faísca” foram incomodados, alta noite, por foguetes que ele soltava, entre os protestos do Correia de Araújo e dos demais republicanos, “para saudar o badalar merencório das doze horas” … Maranhão Sobrinho, diga-se a verdade, tinha um gênio difícil, era talvez insolente, como se depreende da primeira agressão por ele sofrida, ainda em Belém, três anos antes, por mãos do jornalista Paulo Maranhão.       

Há quem atribua o descalabro a alguma motivação política, um atentado premeditado contra a liberdade de consciência e de imprensa. O atual presidente da Academia Amazonense de Letras, Robério Braga, numa crônica intitulada “Surra no poeta”, publicada no jornal “A Crítica”, de 25 de março de 2018, revela-nos outro viés da história até então inexplorado:

“Consta nos anais da política que o espancamento teria sido mandado fazer por ordem e graça superior do governador, insatisfeito com artigos, poemas e conversas que o poeta andava fazendo pela cidade, de bar em bar, nas beiras de calçadas ou em qualquer lugar em que chegasse”.

        Se condiz ou não com os fatos, esta denúncia reflete o clima de intolerância que marcou o governo de Jonathas Pedrosa (1913-1917), considerado um dos mais atormentados mandatos. Não bastasse os adversários políticos que não lhe davam trégua, entre os quais o senador Ruy Barbosa, ainda teve que amargar os dissabores do advento da Primeira Guerra em 1914, que impossibilitou a exportação de seus produtos, fonte quase exclusiva das finanças do Estado.

Outros, por outro lado, preferem atribuí-la a um lamentável equívoco, uma pura má sorte do poeta que, achando-se no lugar errado e na hora errada, acabou pagando por algo de que não foi o responsável.

Sobre os detalhes deste infausto episódio, fala-nos o saudoso professor, historiador e folclorista manauense Mário Ypiranga Monteiro num artigo ao Jornal do Comércio (AM), de 11 de maio de 1975, pg. 5, intitulado “Poesia e Alma (I)”:

“Descansem os poetas que nem vou falar de teoria poética e nem perturbar o manso repouso de Stefan Zweig. Item, não pretendo plagiar ao crítico Mendonça de Souza. Espero, se a Musa não me estuporar o cálamo, destripar consabida presepada em que tiveram ação diversa quatro poetas, e de que resultou imediata surra em dois deles e posteriormente nos outros dois que se envolveram no conflito entre deus e o diabo. Aliás, um dos poetas, por lamentável equívoco, sofreu fisicamente o que estava reservado com justiça ou sem ela a outro. Esses equívocos são sempre para lamentar depois de ocorridos e passados à casa do sem-jeito. Por mais que a culpa seja obliterada não se eliminam as lembranças e a violência.

Refere a imprensa daquele não muito longínquo 1913, que um dos poetas, o PRIMEIRO, que estava na ‘Confeitaria Bijou’ praticando com amigos, havia sido insistentemente procurado nos locais de paradouro e (textual): ‘lhe participaram que, acompanhado do coronel Anísio Teixeira e de um dos esbirros da polícia’, andava o SEGUNDO POETA no seu encalço para descalçar-lhe as botinas. É o começo da história. Mau começo, não há dúvida: O SEGUNDO POETA atrás do PRIMEIRO POETA. Que mofrata! A coisa é divertida e porta assim uma como que atmosfera rocambolesca, detetives e perseguições, esculcas armados e encontros decisivos na base da cachoeira. Merece ser cultivada a crônica intelectual da Manaus de antigamente, dos tempos áureos da imprensa oposicionista. Quando Manaus possuía imprensa oposicionista e quando o jogo de interesse atirava irmãos contra irmãos, isto é, poetas contra poetas, provocando um lameiro de poesia e o avacalhamento das musas.

Não encontrando o SEGUNDO POETA ao PRIMEIRO POETA, afrouxou a trela à matilha que escapou da peugada do TERCEIRO POETA que residia bucolicamente no bairro da Cachoeirinha. Começa a complicar-se a história bufa quando o TERCEIRO POETA é arrancado violentamente dos braços de Morfeu, tamanha vinte e três e meia horas do dia 13 de agosto de 1913[1]. Que azar do diabo! Número treze repetido e mais ‘agosto mês do desgosto’, com a sequência dezenove. O horóscopo do TERCEIRO POETA não marcava ‘albo lapillo’. Acordou com a grita dos esbirros e o baticum na porta do casebre, estremunhando nos braços da carionga. Logo, intimado pelo galfarro Hermógenes Alves de Oliveira e mais quatro nada pacientes sequazes. Sob protestos de inocência, inúteis protestos, e da ignorância do motivo daquele assalto noturno à querência e à propriedade física das costelas, sucedeu imediatamente o argumento baculino. Arrastaram o mal dormido e acabrunhado TERCEIRO POETA para a delega talhada de sabre e de umbigo de boi ensebado. No dia seguinte o QUARTO POETA, que por via das dúvidas botou as barbas de molho, ocultando-se sob o pseudônimo de Chincuã, glosava à sorte má que persegue aos pobres versejadores, publicando no jornal oposicionista ‘Gazeta da Tarde’ a sextilha:

‘Às mãos dos poetas, outrora,

pôs o Destino uma lira;

mas do momento senhora,

eis que a polícia a tira,

e, em passo de minuete,

mete-lhe à costa… o cacete’.

O equívoco verificou-se. Certo é o brocado: o pior inimigo é o oficial do mesmo ofício. O SEGUNDO POETA era persona grata da situação, comido e bebido no território do Palácio das Graças, mas já havia também ele experimentado as curtições do ofício em anteriores oportunidades e lembrava-se de quão blandiciosa era a cavatina do chicote. Sabia, portanto, de experiência própria e provada, que melhor argumento não havia para silenciar liras descontentes e sátiras insolentes do que um lombo de poeta exposto ao emoliente nervo de boi ensebado, as cortantes canas-da-índia, fio elétrico trançado, correias curtidas, peixe-boi e outros contundentes instrumentos de silêncio e de forte argumentação, de nomes esquipáticos como bacalhau, tira-cisma, rabo-de-galo, gato-de-sete-rabos, afora os lugares comuns peia e rebengue.

        O TERCEIRO POETA acabou enxovalhado, vendo estilhaçado o sonho de pobre pedinte, na tabaiada da rua do Marechal Deodoro, entre pulgas e sevandijas, enquanto o SEGUNDO POETA, prelibando a vingança (a vingança é o privilégio dos deuses!) e crente de que as coisas haviam corrido segundo e conforme ordens severas, recolhia-se ao penates ou talvez ao ‘Radiante Clube’ (sua curtição), de consciência limpa e fresca.

        Enquanto isso, o PRIMEIRO POETA, já alarmado, presume-se haver renunciado bangolar pelo sereno no desfrute dos prolfaças à verrina publicada contra o péssimo escriba Generino Maciel (assalariado do governo e mau poeta), verrina em versos que deu causa e origem ao lamentável equívoco. Escafedeu, buscando os rêfegos dos lençóis quentes. A quadra dirigida por tabela contra o SEGUNDO POETA, foi publicada no jornal ‘Correio do Norte’, improvisada, quando o PRIMEIRO POETA por lá passava. Chamava inclusive o Generino de ‘Genebrino’ em alusão às garrafas de Genebra, e ao SEGUNDO POETA de ‘suíno’. Não publicamos a quadra para não identificar a pessoa do SEGUNDO POETA”. 

        Passados vinte e três anos, em sua apresentação à 2ª edição de “Papéis Velhos”, pg. 15-16, o mesmo Mário Ypiranga rompe o sigilo e revela-nos a identidade dos poetas envolvidos:

“O caso foi assim: Nunes Pereira (O Primeiro Poeta) passou pelo jornal ‘Correio do Norte’ e deixou para publicar a seguinte quadrinha:

Genebrino, Genebrino,

Que escreves coisas fecais,

Onde anda esse suíno

Que se chama Th. Vaz? 

Publicada a quadra, à tarde estava Nunes Pereira no bar ‘A Canarina’, quando lhe apareceu um moço tido como o maior mentiroso de Manaus, avisando andar a polícia nos seus calcâneos. Nunes Pereira escafedeu e o Segundo Poeta (Thaumaturgo Vaz), acompanhado de galfanhos, calçou as botas de sete léguas e botou-se na peugada do versejador. Houve naturalmente um quiproquó e a polícia errou a tabelinha e foi arrancar, pela madrugada, dos braços da musa, ao Terceiro Poeta (Maranhão Sobrinho), que pagou o pato com baita surra e detença no xadrez da primeira delegacia. Era o dia 13 de agosto de 1913, uma série de ominosas datas que acabaram chamuscando a pele do Quarto Poeta, o famoso ‘Chincuan’ (Sadoc Pereira), que se não apanhou, pelo menos foi mencionado no rol dos tributos a pagar…”.

[1] A data correta é 13 de outubro de 1913.

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