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Especial Centenário do Poeta Luís Pires: Seus Últimos Dias no Bonfim – barradocorda.com – Ribamar Guimarães – “o bom maranhense”
Publicado em: 5 de junho de 2017 - 14:57

Especial Centenário do Poeta Luís Pires: Seus Últimos Dias no Bonfim

Quarta Parte

Conduziram-me a um pavilhão de corredor extenso e sujo, quartos à direita e à esquerda, dezoito ao todo. Em cada um deles amontoavam-se quatro ou cinco pessoas, redes em ziguezague, a mobília escassa e mal disposta, contrastando-se com alguns internos que jaziam de cócoras pelos cantos ou mesmo refestelados no chão liso, farrapos enganchados em pregos que serviam de cabide, um banheiro coletivo e, no fundo, uma varanda.

– Este é o Pavilhão dos Solteiros. Você vai ficar aqui esta noite. Amanhã cedo farão a sua baciloscopia e o preenchimento da ficha para sua admissão, disse o senhor magro que me escoltara, dando-me as costas.

Fiquei acompanhando com os olhos aquele homem que mal se equilibrava, menos por causa do negrume da noite que pela ausência de dedos em um de seus pés. Fiquei ouvindo o ruído das botinas miúdas que entortavam mesmo sob o peso insignificante de seu viandante. Depois enfrentei lentamente o apinhado de gente que ia cada vez mais engrossando e se fechando em torno de mim; um deles, homem novo, moreno, o mais vigoroso, fez a pergunta por todos:

– Como é o seu nome, novato?

– Luís.

– O meu é Herculano. E estendeu-me a mão atrofiada, desprovida de dedos.

Um grupo deles descambou a rir. Outros se entreolhavam, contendo a mesma inexplicável e cumpliciosa irrupção.

Algum, porém, incomodado, falou em má educação, em falta de respeito. A mim me pareceu uma manifestação de franca hostilidade. Recolhi-me, amassando o alfarrábio que trazia à mão. Certamente aqueles “gafos” não eram culpados do meu infortúnio, mas, por outro lado, não podia evitar o desconforto que aquela estranha reação me causara.

– Há algo de errado em meu nome? Em minha terra é um nome comum. Por aqui, não?

– Não leve a mal, amigo, é que eles mesmos não sabiam meu nome. Fazia tempos que não o dizia. Aqui atendo por 95.

– Quê?

– Trocando em miúdos: esqueça que um dia você se chamou Luís. Aqui você não passa de mais um número, e por meio dele se bebe, se come, se caga, e, se não der trabalho, pode até assistir a uma sessão de Mazzaropi, no Cineteatro Darci Vargas, atalhou uma voz rouca que vinha do interior do recinto, onde a luz da lamparina mal conseguia incidir.

– Sou um homem mutilado pelo destino e disso não me lamento. Mas minha identidade, meu nome, sim, tenho medo de perdê-lo. Um nome é tudo: Herculano Firmino Silva, repetia, cabisbaixo, movimentando o que lhe sobrara dos dedos, como a certificar-se da própria existência.

Enterneci-me. Desamassei o manuscrito e pus sobre ele a vista. Pensei na família, no velho Pedro que me traíra em troca de alguns mirréis. Tornei a contraí-lo dentro do punho cerrado e arremessei-o contra o assoalho mosaicado. Armei a rede na primeira escapa que encontrei desocupada e deitei-me. Tudo o que queria era esquecer o passado. A fumaça de um porronca alheio ardia em minhas ventas e subitamente me senti em casa.

– Você é o bicho, Luís! – pensava alto. Isso mesmo, o bicho, capaz de farejar de longe a menor ameaça. Escapara por pouco em Arari e ali estava, gordo e forte, esgravatando as unhas com a ponta de um graveto. Não tinha de que reclamar. Se pelo nome ou número seria conhecido a partir dali, não me importava, estava vivo. Nemésio é que não teve a mesma sorte, coitado. Eu bem que desconfiei que aquilo não era remédio. Pulei fora. Não tomo, não tomo! Iludido pela ânsia de cura, Nemésio deixou injetarem aquele negócio nele. Veneno. Pobre Nemésio! Maldito major Nogueira! Maldito Pedro Lau!

***

Baseado nos ligeiros relatos que deixou registrados no punhado de alfarrábios que disponho, Luís Pires assim descreveria sua chegada à Colônia do Bonfim. A partir daquele momento nem a sua vida nem a da Colônia seriam as mesmas. Pela equipe administrativa, foi identificado pelo número/alcunha 405; seus irmãos de infortúnio o chamavam “Caracol”. Ele assinava sob o pseudônimo “Lusserip”. Luís Pires transpôs o seu Calvário e sobreviveu a todos os que um dia lhe perseguiram. Sobreviveu também a muitos de seus familiares e amigos. Morreu lúcido e em boa velhice, à meia-noite do dia 1º de fevereiro de 2001, aos 83 anos. Chorou, amou, viu sua carne pouco a pouco esfacelar-se e, ao invés de tolher-se e amargurar-se, como era de esperar, escolheu a Poesia; ou melhor, foi por Ela escolhido. Luís Pires foi um resignado não no sentido de rendição passível, subserviência ou deposição da vida, mas por estar plenamente consciente de sua condição e limitações de hanseniano. O autor de “Farrapo” não entregou os pontos, não jogou a toalha, como parece indicar uma primeira leitura de seus versos. Seus poemas são também uma latente/velada denuncia/protesto contra uma sociedade que em nome de um pretenso progresso relegara seus “gafos” a mais absoluta reclusão, condenando-os a mais irreversível das lepras: o preconceito. Despidos de quaisquer pedantismo e convencionalismo insossos, seus versos são a mais legítima expressão da vida, são versos em carne viva, emitidos a partir da dor que lhe tangia. Seu mal era também seu estro. O poeta não compactua com a dor nem lhe tem a menor comunhão, ela é opressora, um inimigo necessário. A compulsória reclusão no Bonfim, seu exílico asilo, obrigou-o a voltar-se para o território de sua própria condição, elegendo-o seu arrimo. O cantor de “Farrapo” retira do mal irremediável em que se acha imerso o motivo aos versos que compõe e faz das chagas do seu corpo o esteio onde ergue seu edifício poético, pois através dele é que o vemos erguer-se como um Lázaro ressurreto.

BARRA DO CORDA 

Foi aqui que passei a mocidade

A sorrir e a cantar alegremente…

Se na vida existir felicidade,

Nesta terra ela mora certamente…

 

O teu jardim, o teu povo, o teu poente,

E tudo que for teu, bela cidade,

Conservarei guardado eternamente

Na inapagável tela da saudade!

 

Da vida me atirando na jornada,

Como quem lembra da mulher amada,

Eu sempre evocarei tua visão…

 

Por seres linda e boa eu te bendigo,

E minh’alma deixando aqui contigo

Teu vulto levarei no coração!…

Apesar de já não possuir os dedos da mão direita (pois era destro), Luís Pires possuía uma bela caligrafia.

 

Luís Pires em uma de suas últimas fotos.

Soneto escrito ainda em Barra do Corda, isto é, anterior a 1944, mas que já prenunciava seu exílio no Sanatório – Colônia do Bonfim.

Exibindo 1 comentário
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  1. Ana Maria Pinho disse:

    Há uma veia poética em Barra do Corda…Kissyan meu caro amigo você faz brotar poesia…você faz com que poetas saiam do limbo do esquecimento…o que você fez pelo poeta Luís Pires foi um renascimento…pois Ninguém morre, enquanto permanece vivo no coração de alguém….e trouxestes Luís Pires à vida com a divulgação de seus escritos e sua história.
    segundo Helder Sousa “um homem de valor nunca morre seu exemplo e suas obras atestam sua imortalidade”. Luís Pires vive na emoção que seus escritos afloram.

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