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Escolha de Biden para ONU marca mudança na política externa – barradocorda.com – Ribamar Guimarães – “o bom maranhense”
Publicado em: 29 de novembro de 2020 - 13:57

Escolha de Biden para ONU marca mudança na política externa


Diplomata Linda Thomas-Greenfield, escolhida por Joe Biden para ser a embaixadora dos EUA na ONU Foto: Mark Makela / AFP

WASHINGTON — Quando Linda Thomas-Greenfield foi mantida sob a mira de uma arma em uma missão diplomática em Ruanda em 1994, ela fez o possível para parecer calma enquanto explicava a um “jovem de olhos vidrados” que não era a mulher que ele deveria matar.

— Eu estava com medo, não me interpretem mal, mas não entrei em pânico — lembrou em uma palestra do TED  Thomas-Greenfield, agora uma das diplomatas mais experientes dos Estados Unidos e escolhida pelo presidente eleito Joe Biden para ser a embaixadora nas Nações Unidas.

A mulher tutsi que era o alvo do sequestrador esteve entre as centenas de milhares de mortos durante o genocídio naquele ano.

Cerca de 26 anos depois daquele episódio angustiante, Thomas-Greenfield logo estará se preparando para sua audiência de confirmação do Senado, para a qual contará com sua experiência em quatro continentes, incluindo atribuições do Departamento de Estado na Jamaica, Nigéria, Suíça e Paquistão, bem como em Washington, onde foi secretária assistente de Estado para assuntos africanos.

Após quatro anos de repetições do bordão “América Primeiro” do presidente Donald Trump e dos secretários de Estado Rex Tillerson e Michael Pompeo, a nomeação de Thomas-Greenfield é um sinal claro de um retorno à diplomacia tradicional e à cooperação em vez do confronto na ONU. É também um voto de confiança nos diplomatas de carreira cuja influência tinha sido reduzida.

— Os Estados Unidos estão de volta. O multilateralismo está de volta. A diplomacia está de volta — disse Thomas-Greenfield na terça-feira, quando Biden apresentou sua equipe de política externa.

Em um sinal de como isso reflete uma mudança de atitude, Pompeo respondeu na Fox News horas depois que “multilateralismo, no caso, é sair com seus amigos em um coquetel bacanudo. Isso não é do interesse dos Estados Unidos da América”.

Diplomacia gumbo

Criada na Louisiana, Thomas-Greenfield foi a mais velha de oito crianças e era levada de ônibus para uma escola onde havia segregação entre brancos e negros quando criança. Seu pai abandonou a escola na terceira série e sua mãe cursou até a oitava série. Ela frequentou a Louisiana State University, onde enfrentou assédio e discriminação por parte de alunos e professores, segundo uma pessoa próxima a ela.

Thomas-Greenfield, de 67 anos, que será uma das autoridades negras de mais alto escalão no governo de Biden, disse na terça-feira que explora suas raízes na Louisiana para realizar uma “diplomacia gumbo”.

— Onde quer que eu fosse alocada ao redor do mundo, eu convidava pessoas de diferentes origens e crenças para me ajudar a fazer um molho roux (com gordura e farinha) e picar cebolas para a Santíssima Trindade, e fazer um gumbo caseiro — disse ela.

O gumbo é o prato mais marcante da culinária Cajun da Louisiana (sul dos Estados Unidos). É um guisado ou uma sopa grossa, geralmente com vários tipos de carne ou mariscos, que se come com arroz branco. A cozinha da Santíssima Trindade Cajun é uma base feita de cebola, pimentão e aipo.

— Foi a minha maneira de quebrar barreiras, me conectar com as pessoas — afirmou.

Biden planeja dar a sua enviada na ONU o status completo de Ministério que falta à atual embaixadora Kelly Craft, mas o trabalho no órgão mundial não será fácil. Sob Trump, os EUA enfrentaram outros membros da organização em questões que vão desde a reimposição de sanções ao Irã até a saída da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma medida que Biden prometeu reverter.

Na semana passada, ela escreveu no Twitter que “os desafios que enfrentamos — uma pandemia global, uma crise econômica global, uma crise climática global, migração em massa e pobreza extrema, justiça social — são implacáveis e interconectados. Mas eles não são insolúveis se os Estados Unidos liderarem o caminho”.

— Sua nomeação será vista na ONU como um sinal de que Washington se reencontrará com o mundo e que a governo de Biden não contará com indivíduos que sejam antagônicos à organização — disse Charles Kupchan, membro sênior do Conselho de Relações Exteriores.

A experiência e os contatos de Thomas-Greenfield na África serão úteis em um momento em que os países africanos ficaram exasperados com os EUA, que recentemente atrasaram a nomeação de diplomatas africanos para chefiar a missão da ONU na Líbia em favor de um cidadão búlgaro.

Assim como seus antecessores recentes, ela terá que lidar com a ascensão da China na ONU. O país asiático ganhou influência ao fazer com que seus cidadãos fossem escolhidos para chefiar agências de alto escalão.

— A China tem se mostrado muito mais disposta a jogar o jogo do que os Estados Unidos — disse Daniel Drezner, professor de política internacional na Fletcher School da Universidade Tufts. — Qualquer coisa que questione isso e sugira que os EUA estão prestando atenção à África, onde a China tem sido um grande benfeitor, beneficiará a diplomacia dos EUA na ONU.

Volta da diplomacia de carreira

Diplomatas e líderes africanos veem Thomas-Greenfield como um enviada que sempre esteve determinada a entrar em campo o máximo possível.

— Ela conheceu a Libéria, não apenas a capital, mas também a zona rural da Libéria — disse a ex-presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf por telefone. — Como secretária adjunta para assuntos africanos, ela conseguiu mobilizar o apoio dos EUA para a Libéria durante o surto de ebola de 2014.

A nomeação de Thomas-Greenfield também enviará uma mensagem aos diplomatas de carreira do serviço externo dos Estados Unidos, que foram em grande parte afastados dos cargos seniores durante o governo Trump.

Pompeo tentou recontratar Thomas-Greenfield quando ele assumiu o cargo de principal diplomata de Trump em abril de 2018, mas ela recusou, de acordo com uma pessoa familiarizada com seu pensamento na época, que pediu para não ser identificada.

Em um artigo de novembro para a revista Foreign Affairs, que ela co-escreveu com William Burns, Thomas-Greenfield, que serviu por um tempo como diretora-geral do serviço estrangeiro, lamentou os “estragos” no Departamento de Estado e pediu um compromisso de investimento nas pessoas do departamento.

— Sua nomeação envia uma mensagem importante ao serviço externo, de que um dos seus, e uma pessoa de cor, pode se tornar um membro do governo — disse Wendy Sherman, ex-subsecretária de Estado para assuntos políticos do presidente Barack Obama, que trabalhou de perto com Thomas-Greenfield, incluindo em seu recente cargo na Albright Stonebridge Group LLC, um grupo de consultoria fundado pela ex-secretária de Estado Madeleine Albright.

Thomas-Greenfield é “muito capaz de dar uma entrevista coletiva e divulgar uma narrativa pública, mas não faz questão de ser o ponto mais reluzente na sala”, disse Sherman.

Fonte: David Wainer, da Bloomberg

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