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Especial centenário do poeta Luís Pires : A vida no asilo colônia do bonfim – barradocorda.com – Ribamar Guimarães – “o bom maranhense”
Publicado em: 29 de maio de 2017 - 12:17

Especial centenário do poeta Luís Pires : A vida no asilo colônia do bonfim

Terceira Parte

A Colônia do Bonfim foi inaugurada em 17 de outubro de 1937. Na oportunidade, nenhum doente que ali seria isolado compareceu, restrita que foi às autoridades políticas, religiosas e médicas. Segundo a Exposição feita pelo Interventor Federal Paulo Ramos ao povo maranhense, em 15 de agosto de 1938, o asilo-colônia do Bonfim estaria dividida em três zonas: a ZONA SADIA, que começava do cais e possuía cinco residências confortáveis para o médico, capelão e demais funcionários, e um poço de água potável; a ZONA INTERMEDIÁRIA, onde ficavam os edifícios da Administração, entre os quais o parlatório; e a ZONA DOENTE, que era, por assim dizer, uma cidade em miniatura, com o pavilhão das clínicas, hospital, capela, cozinha, refeitório, quatro pavilhões com capacidade para 402 doentes, 82 casas distribuídas em duas ruas e uma praça, lavanderia a vapor, usina elétrica, caixa d’água de concreto armado para 65 mil litros cúbicos e três poços de água potável.

VISTA GERAL DA COLÔNIA DO BONFIM –  ZONA DOENTE

Possuía ainda escola, cinema, comércio, barbearia, padaria, capela, necrotério, um pavilhão só de “mulheres da vida”, onde alguns internos solteiros iam para se “aliviar”, e uma cadeia para os internos que infringiam as normas da Colônia. Curiosamente, os jornais da capital informam que o interno Peri Gomes Feio, poeta hanseniano e amigo de Luís Pires, esteve por algum tempo preso por tentar fugir da Colônia. Soube-se que a intenção de Peri era chamar a atenção das autoridades pelas péssimas condições de vida a que eram submetidos os internos. Sua prisão, na verdade, objetivava calá-lo. Após a morte de Peri, Luís Pires tornou-se o grande reivindicador das necessidades da Colônia.

Convém salientar que os que ficavam na zona sadia não podiam passar para a doente, nem os da zona doente para a sadia. O parlatório era o ponto de encontro entre ambas as zonas. Nele havia uma grande vidraça de separação através do qual os médicos consultavam e receitavam as medicações apenas vendo de longe os pacientes. Um detalhe: não eram os sadios que administravam as medicações, mas os próprios doentes, os chamados “melhorados” que, como o próprio nome indica, eram hansenianos em fase inicial e que não apresentavam ainda sinal de mutilação.

 

JORNAL “ALVORADA”, EM QUE APARECE LUÍS PIRES COMO DIRETOR

Foi nesse ambiente de isolamento social compulsório, segregação, preconceito, animalização e destruição do que há de humano no homem que viveu Luís Pires, por 57 longos anos. Aí travou suas lutas, destacou-se e ganhou o respeito e a admiração de todos da Colônia. Foi professor de Português e Literatura no Colégio Paulo Ramos durante décadas; foi locutor da “Voz do Bonfim”, na rádio Dagmar Brito; escrevia editais que eram lidos por Hélio Lisboa de Morais Brito, da Rádio Timbira, em São Luís; foi redator-chefe e diretor do jornal “Alvorada”, fundado, mantido e dirigido pela UGA – União Gráfica Ateniense, de cuja diretoria foi membro, chegando a presidi-la; publicou dois livros: o primeiro, de memórias, intitulado “Hecatombe de Alto Alegre”, que foi o primeiro relato do massacre feita por um barra-cordense; o segundo, de poemas, intitulado “Farrapo”; artista plástico, pintou o Rio Jordão e Pia Batismal na Primeira Igreja Batista e uma magnífica paisagem na parede de fundo do cinema; escreveu várias peças teatrais que fizeram história no Bonfim; ele era quem organizava as festas e eventos sociais, desenhava e confeccionava todo o figurino, pois era também alfaiate. As peças eram apresentadas em datas especiais da Colônia e durante a visita de autoridades políticas e religiosas.

Luís Pires casou-se duas vezes e sobreviveu às duas esposas. A primeira foi Nair Mendes Oliveira, interna, proveniente de Caxias, e que tornou-se “figura conceituada” naquela sociedade. Após sua morte, Luís Pires escreveu um documento à direção da Colônia (isso já na década de 60, quando houve a mudança na política de internação, com maior abertura), pedindo para passar um tempo na Colônia Antônio Diogo, no Ceará, com um único propósito: arrumar uma nova esposa. Voltando, trouxe consigo Anelita Sardinha Sousa, a que seria sua segunda esposa e mãe de seu filho.

JOEL DE JESUS NASCIMENTO PIRES, FILHO DO POETA

Convém destacar também que, naquela época, todas os bebês de pais hansenianos que nasciam no Bonfim eram levados para educandários no momento em que nasciam; as mães não podiam tocar, nem sequer ver o próprio filho. Assim aconteceu com o filho de nosso poeta, o pequeno Joel de Jesus Nascimento Pires.

A despeito de tudo, Luís Pires jamais perdeu a alegria, o ânimo, a esperança, como o demonstra este soneto:

SÚPLICA A JESUS

           

           

 

 

            Senhor Jesus, que há séculos passados

            Salvaste o bom ladrão e foste embora,

            Tem compaixão dos filhos deserdados,

            Da humanidade mísera que chora.

 

            Não me deixe no rol dos condenados…

            Oh! Vem, Senhor Jesus, vem sem demora,

            Aliviar do peso dos pecados

            A quem o teu perdão, humilde, implora.

 

            Quero ser teu e sempre andar contigo,

            Meu defensor das garras do inimigo

            Que sempre ruge na infernal caverna.

 

            Estou certo de que, contigo andando,

            Hei de passar, Senhor meu Deus, cantando,

            Das torturas da morte à vida eterna. 

QUARTA PARTE: Os Últimos Dias de Luís Pires no Bonfim

Exibindo 3 comentários
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  1. Ana Maria Pinho disse:

    O poeta Kissyan Castro fez justiça a um homem que transformou a dor em poesia: Luis Nascimento Pires, o Luisinho Pires tinha um traço marcante que era a Gratidão…com todo o seu sofrimento sempre agradecia..fosse a Deus..a um Médico..a Instituição que o acolheu…só uma coisa martirizava esse homem das letras: a saudade de Barra do Corda…mas mesmo assim ele escreveu em prosa e verso a beleza de sua terra.
    Kissyan também realizou um antigo sonho meu: que era ver surgir das cinzas do esquecimento toda a beleza das obras de nosso Lusserip.O Resgate que esse jovem poeta fez da história de Luís Pires me comove, pois ele veio lá de fora nos mostrar aqui na ex-colonia do Bomfim, o valor de nosso poeta esquecido. Parabéns Kissyan, meu amigo, é um orgulho ser sua amiga e eu agradeço o que você fez por Luís Pires: Remover o véu do esquecimento desse que foi um dos grandes brilhantes dos poetas maranhenses.

  2. Jorge Abreu disse:

    O poeta Kissyan Castro faz um trabalho de grande porte ao resgatar a vida e a poesia de Luís Pires. Palmas para os dois poetas! Kissyan Castro já nos proporcionou o belo trabalho de resgate da obra de Maranhão Sobrinho (Maranhão Sobrinho Poesia Esparsa, Edições ABCL/360° Gráfica Editora, 2015). Agora, nos enriquece intelectualmente com a história de Luís Pires. Importante registrar que esse trabalho de Kissyan Castro está sendo divulgado em forma de folhetim, bastante utilizado em épocas passadas, o que torna a leitura ainda mais agradável!

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